terça-feira, 7 de junho de 2011

AMOR É ISSO?




Você quer um amor, custe o que custar?

:: Rosana Braga ::


Algumas pessoas, depois de passar um longo tempo sem namorar, entram numa espécie de redemoinho de ansiedade e desespero, pensando e agindo de modo visivelmente desesperado para conseguir engatar um encontro, um caso, qualquer que seja a forma de vínculo.

Claro que a maioria nem percebe essa dinâmica desvairada que adota. Muitos acreditam mesmo que estão apenas "lutando" por alguém que lhes interessa - e nada mais natural. Mas a questão é que sempre tem alguém, ou melhor, essas pessoas se apaixonam e se desapaixonam quase que semanalmente.

Há ainda aquelas que nunca ficam sem uma história de "amor". Estão sempre enroladas e sofrendo. E, assim, terminam assumindo como seus aqueles perfis sustentados pelo azar: "tenho o dedo podre para relacionamentos", "só atraio pessoas erradas", "não nasci para ser feliz no amor", entre outros.

E, apesar disso, praticamente afogadas na inconsciência e na falta de autoconhecimento, essas pessoas não se dão conta de que precisam parar, olhar para si mesmas, sentir e, sobretudo, refletir sobre algumas questões básicas: "o que eu realmente quero?", "o que estou buscando no outro que, talvez, devesse encontrar antes em mim mesma?", "por que será que não tem dado certo?", "será que devo mudar algo em mim para que os encontros sejam mais harmoniosos?".

Se você tem se sentido angustiado, carente e frustrado porque não consegue namorar, cuidado com a cilada do "vou conseguir, custe o que custar". Veja bem: quando você se predispõe a pagar qualquer preço por uma companhia, só pra poder "provar", seja para si mesmo ou para quem quer que seja, que você é capaz de atrair um par, é muito provável que a conta, isto é, o tal preço de custo seja bem mais alto do que você imaginava.

Relacionamento tem de ser caminho para a evolução e não para a involução, para a autodestruição, para a aniquilação de autoestima, segurança e amor próprio. Amor tem de ser gratuito, fluido, gostoso. Encontro tem de ser leve, divertido, motivador. Namoro tem de ser sinônimo de troca, reciprocidade, acréscimo, encantamento.

Mas tudo isso de bom só é possível quando você tiver noção do quanto merece, do quanto realmente pode ser feliz. E, assim, em vez de pagar para ter alguém em sua vida, compreenderá que se fôssemos comparar o entrelaçamento de dois corações com uma negociação, estaria mais para uma permuta: você dá o seu melhor e recebe do outro o melhor que ele tem a oferecer. Ninguém precisa pagar nada. Não há custos, a não ser o da aprendizagem.

Portanto, pare de atirar para todos os lados, desperdiçar os seus dias em função de um outro que você nem sabe se lhe quer. Desespero não atrai e sim espanta, assusta. Lembre-se: para atingir um alvo, você precisa de foco, precisão e conhecimento. E para conquistar um coração, você precisa de sensibilidade, cuidado, respeito e autopercepção. Se conseguir exercitar o melhor dessas artes, é bem provável que você pare de pagar -e muito caro- para viver encontros que mais servem para te roubar toda sua esperança do que para te fazer feliz de verdade...

domingo, 29 de maio de 2011

OXI

Folha de São Paulo - DE SÃO PAULO

Especialistas monitoram o uso de mais um subproduto do crack a partir de relatos à rede de tratamento. "Falam do óxi como uma nova substância com efeito mais forte e cheiro distinto, que provoca mais diarreias", relata Ronaldo Laranjeira, presidente do Instituto Nacional de Políticas de Álcool e Drogas.

Mais impuro, o óxi tem potencial para agravar problemas pulmonares, em função da inalação de gasolina e outros solventes. "Até dois meses atrás, achava que nada podia ser pior que o crack", diz Laranjeira. "Os danos cerebrais e neurológicos podem ser ainda maiores."

Titular da departamento de psiquiatria da Unifesp, ele afirma que não deu tempo ainda de analisar impactos. "Entre experimentar e substituir o crack pelo óxi leva tempo", diz. "Muita gente vai morrer e ficar doente para que se consiga constatar os estragos do óxi à saúde.



Oxi, uma droga ainda pior



O oxi – uma pedra tóxica feita com cal, gasolina e pasta de cocaína – se espalha pelo país e assusta as autoridades mais que o crack

Época - HUMBERTO MAIA JUNIOR, COM RODRIGO TURRER

LONGE DEMAIS

Pedro, de 27 anos, numa clínica para dependentes em São Paulo. Usuário de crack, ao provar oxi sentiu que sua vida estava em risco.
Pedro tinha 8 anos quando começou a fumar maconha. Aos 14, experimentou cocaína. Com 19, foi apresentado ao crack. “Eu fumava cinco pedras e bebia até 12 copos de pinga.” Em janeiro deste ano, seu fornecedor de drogas, em Brasília, passou a oferecer pedras diferentes, com cheiro de querosene e consistência mais mole. Pedro estranhou. “Dizia a ele que a pedra estava batizada, que não era boa. O cara me dizia que era o que tinha e ainda me daria umas (pedras) a mais.” Não demorou para Pedro notar a diferença no efeito. A nova pedra era mais viciante. Para não sofrer com crises de abstinência, dobrou o consumo para até dez pedras por dia. Descobriu então que, em vez de crack, estava fumando uma droga chamada oxi. “Quando soube, vi que estava botando um veneno ainda maior no meu corpo. Fiquei com medo de morrer.” Aos 27 anos, depois de quase duas décadas de dependência química, Pedro sentiu que tinha ido longe demais. Internou-se numa clínica.
A história de Pedro (nome fictício) ilustra o terror provocado pelo oxi, droga que está se espalhando rapidamente pelo Brasil. O oxi está sendo tratado pelos médicos como algo mais letal que o crack, considerado até agora a mais devastadora das drogas. Mas é consumido por pessoas que não sabem disso, porque é vendido em bocas de fumo como se fosse crack. “O oxi invadiu os postos de venda tradicionais. Isso preocupa”, diz o delegado Reinaldo Correa, titular da Divisão de Prevenção e Educação do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), da Polícia Civil de São Paulo.

A primeira apreensão confirmada do oxi em São Paulo ocorreu quase por acaso. Em março, a polícia apreendeu 60 quilos de algo que foi classificado como crack. O equívoco foi corrigido quando esse carregamento foi usado numa demonstração para novos policiais. “Queimamos algumas pedras e, pelos resíduos, concluímos que era oxi”, afirma Correa. Quase diariamente, a polícia de algum Estado do Brasil anuncia ter apreendido a droga pela primeira vez (leia o mapa abaixo) . Em alguns casos, como em Minas Gerais, Bahia, Paraná e Rio Grande do Sul, as primeiras apreensões foram feitas na semana passada. Não é que o oxi surgiu em tantos lugares em tão pouco tempo. Ele já havia se espalhado sem ser notado.

Como o crack, o oxi é vendido em pedras que, quando queimadas, liberam uma fumaça. Inalada, em poucos segundos vai para o cérebro, provocando euforia e bem-estar. “Visualmente, são quase idênticas”, diz Correa. A diferenciação pode ser feita pela fumaça, que no caso do crack é mais branca, ou pelos resíduos: o crack deixa cinzas, enquanto o oxi libera uma substância oleosa. Por causa da dificuldade em distinguir uma droga da outra, é impossível ter exata noção da penetração do oxi entre os usuários. “Sabemos apenas que ele está aqui há algum tempo”, afirma Correa.

Recente nos Estados mais ao sul do país, o oxi é velho conhecido dos viciados da Região Norte. Acredita-se que a droga entrou no Brasil ainda na década de 1980, a partir de Brasileia e Epitaciolândia, cidades do Acre que fazem fronteira com a Bolívia. O consumo da substância foi registrado por pesquisadores em 2003, quando Álvaro Mendes, vice-presidente da Associação Brasileira de Redução de Danos (Aborda), pesquisava o uso de merla, outro derivado da cocaína, entre os acrianos. “No primeiro momento, o oxi era usado pelas classes sociais mais baixas e por místicos que iam ao Acre atrás da ayahuasca (chá alucinógeno usado em cerimônias do Santo Daime)”, diz Mendes. A droga chegou à capital, Rio Branco, de onde se espalhou para outros Estados da região. “Hoje, é consumida em todas as classes sociais”, diz Mendes.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

CRAVING OU FISSURA

RESUMO
O craving ou fissura, cuja definição mais comum é o desejo intenso por uma substância, é um conceito controverso entre os pesquisadores da área da dependência química.
OBJETIVO: Realizar revisão teórica a respeito do craving nos bancos de dados PsycInfo, Medline, ProQuest e Science Direct.

MÉTODO: As palavras-chave utilizadas foram craving, dependence e drug e o período pesquisado foi entre 1995 e 2007.

RESULTADOS: Os resultados demonstraram que são encontrados diversos significados para o craving, alguns se restringindo a desejo, e outros, considerando-o não só como desejo, mas como antecipação do resultado positivo do uso da substância, alívio dos sintomas de abstinência ou afeto negativo e intenção de fumar, o que reflete uma visão multidimensional deste construto. A etiologia do craving pode ser explicada por intermédio dos modelos: comportamental, cognitivo ou psicossocial e neurobiológico, porquanto a opção por um destes influencia a avaliação e o manejo.

CONCLUSÃO: Conclui-se quanto à multidimensionalidade do craving e quanto à necessidade de que seja utilizado um modelo biopsicossocial que integre os diversos modelos no tratamento de dependentes químicos. Destaca-se a importância da realização de mais estudos para a compreensão do craving em função deste ser um dos principais riscos de recaída.

INTRODUÇÃO
A idéia de elaborar este estudo surgiu a partir de dois pacientes que informaram, em ocasiões diferentes, que superavam o craving ingerindo doces. Na situação de craving um dos pacientes chegava a consumir até uma lata de leite condensado e o outro três barras de chocolate ao leite. Esses pacientes estavam em tratamento por dependência de cocaína aspirada em ambiente protegido. Geralmente, no ambiente protegido, o craving é superado com a ajuda psicológica e psiquiátrica, com o apoio da equipe de enfermagem, de colegas de tratamento ou pelo próprio paciente dirigindo-se para uma atividade, por exemplo prática esportiva.
Craving, também chamado fissura, "é um forte impulso subjetivo para usar a substância", experimentado pela maioria, senão por todos os dependentes de substância psicoativa (DSM-IV, 1995). Craving é um fenômeno que resulta em respostas fisiológicas e psicológicas a partir de um forte desejo para obter e consumir a substância. O anseio pela substância estaria associado com indicadores que lembram o reforço positivo e não com indicadores que evocam a abstinência, já que as drogas podem ser reforçadoras pela extinção dos estados aversivos (JAFFE, 1999a).
Estudos têm relacionado o craving com alterações em neurotransmissores como a depleção de dopamina, alterações do nível de serotonina (SATEL et al, 1995; LITTLE et al, 1996; JACOBSEN et al, 2000) e alterações no sistema límbico e lobo frontal (CHILDRESS et al, 1999; WEXLER et al, 2001). As ações de reforço associadas à gratificação de alimento, sexo ou de certas drogas dependem criticamente do circuito dopaminérgico. Há evidências que drogas como a nicotina, canabinóides e cocaína ativam trajetos dopaminérgicos especialmente ligados ao núcleo acumbente. Entretanto, as ações da cocaína não são seletivas apenas para a dopamina. A cocaína tem quase igual potência para bloquear a recaptação da norepinefrina, serotonina e, em certa medida, a acetilcolina. Também as propriedades reforçadoras não são exclusivas da droga ou do estímulo. Estudos laboratoriais, com voluntários humanos pós-adição sobre o metabolismo da glicose cerebral e fluxo sangüíneo cerebral, demonstraram que quando os sujeitos experienciam euforia induzida por opióides ou cocaína há uma diminuição no metabolismo de glicose cerebral, principalmente nas áreas corticais (JAFFE, 1999a, 1999b).
Açúcares são encontrados naturalmente em muitos alimentos. Açúcares são carboidratos convertidos em glicose pelo trato digestivo e pelo fígado antes de chegarem às células. No interior das células reagem quimicamente ao oxigênio sob a influência de inúmeros enzimas que controlam as reações e catalisam a energia. Essas reações oxidantes ocorrem geralmente no interior das mitocôndrias e a energia liberada é, em grande parte, usada para formar o ATP, o qual é utilizado por cada célula nas reações metabólicas intracelulares. Glicose no sangue estimula a secreção de insulina que promove sua captação, armazenamento e sua rápida utilização para os tecidos do corpo, especialmente nos músculos, tecido adiposo e fígado. Quantidades de glicose, na ausência de insulina, ficam concentradas no fígado e no cérebro. O tecido cerebral difere de outros tecidos do corpo, pois a insulina exerce nele pouco ou nenhum efeito sobre a utilização ou a captação da glicose. Os neurônios são permeáveis à glicose, utilizando-a para fins energéticos (GUYTON e HALL, 1997).
Neste estudo referimos em especial à sacarose, o açúcar extraído da cana de açúcar, e à lactose, o açúcar do leite, que são muito utilizados nas receitas caseiras e industriais de bolos, doces, confeitos, sucos, refrigerantes, enfim, na composição de inúmeros produtos alimentícios.
Estudos epidemiológicos apontaram que o consumo de açúcar, como de outros carboidratos, está associado a fraqueza e não com obesidade (ANDERSON, 1995). Para WURTMAN e WURTMAN (1995) a liberação de serotonina no cérebro depende do tipo de alimento consumido. Os carboidratos durante a digestão são desdobrados em aminoácidos, vitaminas e minerais, os quais são absorvidos indo para a corrente sanguínea. Uma reação química faz o aminoácido triptofano se desligar da proteína albumina e circular livremente no sangue. Dessa maneira, mais triptofano livre chega ao cérebro para a fabricação de serotonina.
Portanto, aumento de serotonina está relacionado com consumo de carboidratos, fato que não ocorre quando da ingestão de proteínas. Essa sinalização dos neurotransmissores, (consumo de carboidratos ? aumento de serotonina) é um vínculo no mecanismo de re-alimentação que regularmente mantém o consumo de carboidratos e proteínas. Consequentemente há pessoas que aprendem a consumir demais certos alimentos ricos em carboidratos e gorduras porque se sentem bem devido o aumento da serotonina. Esse aprendizado para utilizar certas comidas, à semelhança de uma droga, um tipo de relação chamada de "comida e humor", pode resultar em ganho de peso, fato que se observa em mulheres com síndrome pré-menstrual, em pessoas com "depressão de inverno", em pacientes bulímicos com peso normal ou em pessoas que estão tentando parar de fumar, já que a retirada de nicotina, tal como uma dieta de carboidratos, diminui a secreção de serotonina no cérebro, o que pode tornar essas pessoas irritadas ou deprimidas (WURTMAN e WURTMAN, 1995).
Açúcar já foi responsabilizado por vários transtornos, inclusive hiperatividade em crianças, mas refutados em ensaios clínicos (LEE e PAFFENBARGER JR, 1998). Existem poucos apoios à evidência que o consumo de açúcar tenha efeito significativo no comportamento e desempenho cognitivo de crianças. Parece que há um papel da glicose na potenciação da memória, mas a relevância clínica e os mecanismos envolvidos requerem pesquisas adicionais a esse respeito. Não há dados significativos que a sacarose tenha propriedades analgésicas, porém, especialmente em crianças, pode ter um efeito sedativo (WHITE e WOLRAICH, 1995; WOLRAICH, WILSON e WHITE, 1995).
KAMPOV-POLEVOY, GARBUTT e JANOWSKY (1997) e KAMPOV-POLEVOY et al (1998) encontraram uma associação entre a preferência para soluções mais fortes de doces e dependência de álcool. Preferência exagerada por doces e a tendência para novas experiências pessoais estariam ligadas ao alcoolismo, já que as reações ligadas ao prazer pelo açúcar e pelo álcool no cérebro são muito parecidas.
A informação de dois pacientes que consumir um alimento doce fazia superar o craving e a conseqüente base teórica apresentada foram as principais justificativas para a elaboração deste estudo. Assim, levantou-se a seguinte questão: a superação do craving consumindo doce são dados isolados experienciados por esses dois pacientes ou um comportamento mais freqüente em dependentes de cocaína crack?
Daí, o desenho de um estudo clínico transversal de observação, portanto exploratório, com o objetivo de constatar a freqüência e a relação craving-consumo de doce em pacientes em tratamento por dependência de cocaína aspirada e/ou crack.

MÉTODO
Este estudo foi desenvolvido na Clínica Mirante do Instituto Bairral de Psiquiatria de Itapira, Estado de São Paulo, cujo programa terapêutico atende pacientes voluntários dependentes de substâncias psicoativas em ambiente protegido. O trabalho é nos moldes de comunidade terapêutica e coordenado por uma equipe multidisciplinar (ZAGO et al, 1999).
Portanto, a amostra foi constituída de pacientes em tratamento e aqueles que cumpriam os critérios de inclusão eram selecionados para o estudo, depois de devidamente informados e de consentirem livremente sua participação na pesquisa.
Os dados para a inclusão/exclusão foram obtidos por meio dos prontuários clínicos dos pacientes.
Os critérios de inclusão foram: idade entre 15 a 65 anos; ambos os sexos; primeiro diagnóstico de dependência de cocaína e/ou crack; e outros diagnósticos por uso nocivo, abuso ou dependência de outras substâncias psicoativas de acordo com a CID-10 (1993).
Foram critérios de exclusão: diagnóstico de outros transtornos que não abuso ou dependência de substância psicoativa de acordo com a CID-10 (1993); histórico de diabetes identificado por exame clínico.
O exame psiquiátrico e o diagnóstico eram elaborados por um dos psiquiatras da equipe na admissão do paciente.
O paciente incluído no estudo era entrevistado individualmente e a entrevista era conduzida obedecendo os seguintes itens:
◦dados sócio-demográficos;
◦tempo de internação (abstinência);
◦ausência/presença de ocorrência de craving no período de abstinência, isto é, durante a internação: ausente; de 1 a 3 vezes; mais de 3 vezes. Se presença de craving: consumo de algum doce (produto alimentício, caseiro ou industrializado, sólido, pastoso ou líqüido, tendo o açúcar de cana (sacarose) ou o leite (lactose) como um de seus ingredientes; que não é salgado, azedo nem picante) durante o craving e experienciando que o craving foi superado com a ingestão desse alimento. Se afirmativo, qual doce consumido nessa ocasião?
◦freqüência do consumo de doce antes da internação (pressupondo o uso da substância) e durante a internação (em abstinência da substância): nenhum; de 1 a 2 vezes/semana; de 3 a 5 vezes/semana; mais de 6 vezes/semana.
Por ser um estudo clínico transversal e de observação, os dados foram analisados em freqüências absolutas e relativas. Foram construídas tabelas a partir dos dados obtidos.

RESULTADOS
Ttabela 1: os dados descritivos e comparativos das variáveis sócio-demográficas da amostra (n = 26). Da amostra, 42,3% dos pacientes entrevistados responderam não sentir craving na abstinência (durante a internação) (não-craving; n = 11); 26,9% responderam positivamente para craving ( craving; n = 7) e 30,7% responderam que sentiram craving e o superaram consumindo doce (craving-doce; n = 8). No total, 57,6% (n = 15) da amostra referiram sentir craving.
As características sócio-demográficas mais freqüentes da amostra foram: 92,3% do sexo masculino; 46,1% na faixa etária de 31 a 40 anos; 61,5% solteiros e 57,6% empregados, de ensino médio e católicos. As menos freqüentes foram: 7,6% do sexo feminino; 7,6% com idade inferior a 20 anos; 15,3% casados; 3,8% aposentados; 25,3% ensino fundamental e 3,8% de religião budista. A procura no serviço, na sua maioria, por pacientes do sexo masculino em relação ao feminino explica a freqüência de 7,6% para o sexo feminino.
Tabela 1: Dados descritivos e comparativos das variáveis sócio-demográficas em freqüências absolutas e relativas.

Não-craving Craving Craving-doce Total
Variável Categorias n (%) n (%) n (%) n (%)
Sexo Masculino 9 (34,6) 7 (26,9) 8 (30,7) 24 (92,3)
Feminino 2 (7,6) 0 (0,0) 0 (0,0) 2 (7,6)
Faixa < 20 anos 1 (3,8) 1 (3,8) 0 (0,0) 2 (7,6)
Etária 21 a 30 4 (15,3) 2 (7,7) 3 (11,5) 9 (34,6)
31a 40 5 (19,2) 3 (11,5) 4 (15,3) 12 (46,1)
> 40 anos 1 (3,8) 1 (3,8) 1 (3,8) 3 (11,5)
Estado Solteiro 7 (26,9) 5 (19,2) 4 (15,3) 16 (61,5)
Civil Casado 2 (7,6) 1 (3,8) 1 (3,8) 4 (15,3)
Separado 2 (7,6) 1 (3,8) 3 (11,5) 6 (23,0)
Sit. Prof. Empregado 7 (26,9) 3 (11,5) 5 (19,2) 15 (57,6)
Desempregado 2 (7,6) 2 (7,6) 3 (11,5) 7 (26,9)
Aposentado 1 (3,8) 0 (0,0) 0 (0,0) 1 (3,8)
Estudante 1 (3,8) 2 (7,6) 0 (0,0) 3 (11,5)
Ensino Fundamental 2 (7,6) 0 (0,0) 2 (7,6) 4 (15,3)
Médio 5 (19,2) 5 (19,2) 5 (19,2) 15 (57,6)
Superior 4 (15,3) 2 (7,6) 1 (3,8) 7 (26,9)
Religião Católica 5 (19,2) 6 (23,0) 4 (15,3) 15 (57,6)
Evangélica 1 (3,8) 0 (0,0) 1 (3,8) 2 (7,6)
Espírita 3 (11,5) 0 (0,0) 1 (3,8) 4 (15,3
Budista 0 (0,0) 1 (3,8) 0 (0,0) 1 (3,8
Sem religião 2 (7,6) 0 (7,6) 2 (7,6) 4 (15,3)

Quanto ao grupo craving-doce (n = 8) as características sócio-demográficas mais freqüentes foram: 30,7% do sexo masculino; 15,3% na faixa etária de 31 a 40 anos; 15,3% solteiros; 19,2% empregados; 19,1% ensino médio e 15,3% católicos.
Os dados descritivos e comparativos das características clínicas são apresentados na tabela 2. A maioria da amostra, 61,5%, fazia uso dependente de cocaína; 19,2% de crack e 19,2% de cocaína e crack.
Quanto ao uso nocivo, abuso ou mesmo dependência de outras substâncias associadas à dependência de cocaína-crack, a maior freqüência foi de álcool-tabaco, 38,4%; seguida de dependência de tabaco, 30,7%. No grupo craving-doce a maior freqüência foi a associação álcool/tabaco, 23,0%. No que se refere à medicação, para 57,6% estava prescrita uma média de 10 a 20 mg/dia de benzodiazepínicos (BZDs) e 34,6% sem medicação psiquiátrica. Para o grupo craving-doce (n = 8), 6 ou 23,0% tinham prescrição de BZDs. A maioria das entrevistas (76,8%) foi realizada no período de 5 a 12 dias de abstinência.

Tabela 2: Dados descritivos e comparativos das variáveis clínicas em freqüências absolutas e relativas.
Não-craving Craving Craving-doce Total
Variável Categorias n (%) n (%) n (%) n (%)
Diagnóstico Cocaína 7* (26,9) 3 (11,5) 6 (23,0) 16 (61,5)
Crack 1 (3,8) 2 (7,6) 2 (7,6) 5 (19,2)
Cocaína-crack 3 (11,5) 2 (7,6) 0 (0,0) 5 (19,2)

Outras substâncias

Álcool 1 (3,8) 2 (7,6) 0 (0,0) 3 (11,5)
Tabaco 5 (19,2) 2 (7,6) 1 (3,8) 8 (30,7)
Cannabis 2 (7,6) 0 (0,0) 0 (0,0) 2 (7,6)
Álcool/tabaco 1 (3,8) 3 (11,5) 6 (23,0) 10 (38,4)
Cannabis/álcool 0 (0,0) 0 (0,0) 1 (3,8) 1 (3,8)
Tabaco/cannabis 1 (3,8) 0 (0,0) 0 (0,0) 1 (3,8)
Sem outras substâncias 1 (3,8) 0 (0,0) 0 (0,0) 1 (3,8)
Medicação
BZDs 5 (19,2) 4 (15,3) 6 (23,0) 15 (57,6)
BZDs+fluoxetina 1** (3,8) 0 (0,0) 0 (0,0) 1 (3,8)
BZDs+piracetan 1 (3,8) 0 (0,0) 0 (0,0) 1 (3,8)
Sem medicação 4 (15,3) 3 (11,5) 2 (7,6) 9 (34,6)

Período de abstinência

< 4 dias 0 (0,0) 1 (3,8) 0 (0,0) 1 (3,8)
de 5 a 8 dias 6 (23,0) 4 (15,3) 4 (15,3) 14 (53,8)
de 9 a 12 dias 3 (11,5) 1 (3,8) 2 (7,6) 6 (23,0)
> 12 dias 2 (7,6) 1 (3,8) 2 (7,6) 5 (19,2)

* um caso de cocaína injetável
** mantida a fluoxetina na admissão, porém não diagnosticado com transtorno depressivo.

Na tabela 3, 42,3% da amostra para ausência de craving. No grupo craving (n = 7) e no craving-doce (n = 8), 38,4% referiram mais de três vezes e 19,2% de uma a três vezes no período de abstinência. Quanto ao grupo craving-doce (n = 8), 23,0% referiram craving por mais de três vezes no período de abstinência, o que significa 75,0% em relação ao próprio grupo (6 ÷ 8.100 = 75,0%). De modo geral, o craving ocorria pela manhã, estimulado por um sonho relacionado à substância; ou, com mais freqüência, ao anoitecer estimulado por apologias à substância. Informaram que o aprendizado de buscar um alimento doce no craving ocorreu de forma natural.

Tabela 3: Ausência/presença de craving em freqüências absolutas e relativas.
Não-craving Craving Craving-doce Total
Ausência/presença n (%) n (%) n (%) n (%)
Ausente 11 (42,3) 0 (0,0) 0 (0,0) 11 (42,3)
Presença:
ƒi de 1 a 3 0 (0,0) 3 (11,5) 2 (7,6) 5 (19,2)
ƒi > 3 vezes 0 (0,0) 4 (15,3) 6 (23,0) 10 (38,4)

Na tabela 4 são apresentados os tipos de doces mais utilizados na superação do craving: chocolate ao leite (de duas a três barras; cerca de 60g a 90g), 62,5%; brigadeiro, 25,0% (média de quatro unidades) e goiabada, 12,5% (+ ou - 150g). É importante apontar que cinco desses pacientes, antes da internação, informaram que superavam situações de craving consumindo doces na tentativa de evitar ou substituir o uso da substância. Também informaram um exagerado consumo de doces e refrigerantes durante o crash como forma de "recuperar a energia".
Tabela 4: Tipo de doce consumido no controle do craving.

(n = 8)
Doce n %
Chocolate ao leite 5 (62,5)
Brigadeiro 2 (25,0)
Goiabada 1 (12,5)

Tabela 5: Consumo usual de alimento doce antes/durante a internação (abstinência) em freqüências absolutas e relativas.

Não-craving Craving Craving-doce Total
Consumo de doce n (%) n (%) n (%) n (%)

Antes da internação
Nenhum 4 (15,3) 3 (11,5) 2 (7,6) 9 (34,6)
1 a 2 vezes/semana 1 (3,8) 2 (7,6) 3 (11,5) 6 (23,0)
3 a 5 vezes/semana 4 (25,3) 1 (3,8) 2 (7,6) 7 (26,9)
Mais de 6 vezes/semana 2 (7,6) 1 (3,8) 1 (3,8) 4 (15,3)

Durante a internação

Nenhum 1 (3,8) 0 (0,0) 0 (0,0) 1 (3,8)
1 a 2 vezes/semana 1 (3,8) 0 (0,0) 0 (0,0) 1 (3,8)
3 a 5 vezes/semana 5 (19,2) 2 (7,6) 4 (15,3) 11 (42,3)
Mais de 6 vezes/semana 4 (15,3) 5 (19,2) 4 (15,3) 13 (50,0)

O consumo de alimento doce durante o uso da substância (antes da internação) e na abstinência (durante a internação), portanto não necessariamente relacionado à situação de craving, é apresentado na tabela 5. A maioria da amostra, 34,6%, disseram não consumir doces antes da internação; 26,9% consumiam alimento doce de 3 a 5 vezes na semana; 23,0% de uma a duas vezes na semana e 15,3% mais de seis vezes na semana. O grupo não-craving (n = 11) apresentou a maior freqüência de consumo de doces antes da internação, ou seja, 25,3% que consumiam doces de 3 a 5 vezes/semana. Durante a internação, 50,0% afirmaram consumir alimento doce mais de seis vezes/semana e 42,3% de três a cinco vezes/semana. Esse aumento estava relacionado não só ao consumo da sobremesa servida após as duas refeições principais, mas também ao consumo de outros doces e refrigerantes no decorrer do dia.

DISCUSSÃO
Por ser um impulso subjetivo, geralmente associado às lembranças dos efeitos reforçadores da substância, as variáveis sócio-demográficas, bem como suas respectivas categorias, pareceram não exercer diretamente uma relação com a presença ou ausência do craving. Os BZDs, utilizados nos primeiros dias para ajudar a superar sintomas de abstinência, depois retirados gradativamente, também pareceram não estar diretamente relacionados com o controle do craving (15,3% para n = 7 e 23,0% para n = 8).
É evidente que o fator dependência de cocaína crack é a condição essencial para a presença do craving. Entretanto, parece não ser o único, pois 42,2% referiram não sentir craving durante a primeira semana de abstinência ou de internação. É possível que, além da dependência da substância, devam existir outras variáveis, como disposições subjetivas e estímulos externos e, provavelmente, diferenças individuais. É importante notar, nos grupos que referiram presença de craving, uma relação com a associação álcool/tabaco, ou seja, 11,5% no grupo craving (n = 7) e 23,0% no grupo craving-doce (n = 8), embora a referência ao craving fosse informada exclusivamente para cocaína crack, portanto não ao álcool.
Quanto ao principal enfoque deste estudo, 30,7% da amostra referiram superar a situação de craving consumindo alimento doce com freqüência de uma a três vezes (n = 2) e mais de três vezes (n =6) durante o período de abstinência. Dessa maneira, este estudo mostrou que o consumo de doce como forma de superar o craving não pareceu ser um dado isolado.
No grupo craving-doce (n = 8) o consumo de chocolate ao leite ( n = 5; 62,5%) e brigadeiro, cuja composição básica é chocolate em pó, leite condensado e manteiga, (n = 2; 25,0%) foram os doces mais consumidos para a superação do craving.
TOMASO, BELTRAMO e PIOMELLI (1996)informaram que o chocolate contém substâncias que podem imitar os efeitos da cannabis, pois ativa os mesmos receptores neurais de canabinóides ou indiretamente aumentando os níveis de anandamida. O chocolate contém pequenas quantidades de anandamida, a qual é produzida naturalmente no cérebro em baixas quantidades. O chocolate aumentaria o nível de anandamida produzindo sensações de bem estar.
Os dados obtidos e analisados com o referencial teórico sugeriram algumas inferências sobre o consumo de doce (= açúcar) como forma de superar o craving.
Primeira: o consumo de açúcar teria um efeito placebo, quer dizer, o consumo de doce no craving e a sua conseqüente superação resultaria de um aprendizado de auto-sugestão.
Segunda: com base em WURTMAN e WURTMAN(1995), o consumo de açúcar no craving aumentaria o nível de serotonina no cérebro, regulando então o humor e eliciando uma situação de bem estar. SATEL et al (1995) relataram que sujeitos apresentaram menos desejo (craving induzido) por cocaína depois de terem consumido uma bebida com aminoácido com triptofano do que após o consumo de uma bebida de efeito placebo.
Terceira: o craving causaria uma diminuição do metabolismo de glicose no cérebro, principalmente nas áreas corticais, conforme descrito por JAFFE (1999a, 1999b) sobre a diminuição do metabolismo da glicose e o fluxo sangüíneo no cérebro em voluntários pós-adição de opióides e de cocaína. Com isso o consumo de açúcar durante o craving reequilibraria o metabolismo de glicose no cérebro.
Ainda, em referência ao chocolate sobre sua possível atividade no controle do craving, é possível que esteja mais relacionada ao açúcar contido em sua composição do que com as propriedades características do cacau em ativar receptores de canabinóides ou elevar o nível de anandamida, conforme informado por TOMASO, BELTRAMO e PIOMELLI (1996).
Na prática clínica é observado que há uma tendência dos dependentes em tratamento aumentar naturalmente o consumo de alimentos doces quando interrompem o uso da substância psicoativa. Essa tendência foi confirmada na amostra estudada, quando comparada ao consumo de alimento de doce antes da internação (no período de uso da substância) e durante a internação (na abstinência), onde 90,3% responderam consumir doces mais de três vezes por semana. Desse modo, o aumento do consumo de alimentos doces na abstinência seria uma forma natural para compensar a falta da cocaína crack ou para recuperar a desnutrição causada pelo consumo dessas drogas?
Considerando as limitações próprias de um trabalho clínico de observação, principalmente as limitações metodológicas e o número de sujeitos, os resultados deste estudo sugerem perspectivas não só para a elaboração de pesquisas experimentais, mas também questões no campo da neurociência, da nutrição clínica e do comportamento do dependente de substância psicoativa em tratamento.

Autor
José Antônio Zago joseantoniozago@ig.com.br
Psicólogo do Instituto Bairral de Psiquiatria - Itapira - SP.
Mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba.

domingo, 27 de março de 2011

CÉU NA TERRA – SANTO DAIME - SAIA CORRENDO

O acesso a grupos daimistas é muito fácil, não existe nenhum impedimento. Foi assim que, levada pela minha incansável curiosidade, ou apelo, espiritual me vi dentro, por engano de informação, no Céu na Terra.
A ayhuasca é dada generosa e indiscriminadamente nesta orientação, os grupos são autônomos e cada “padrinho” (título do chefe) decide seu ritual que parte de um princípio de busca de autoconhecimento. Mas isso eu não sabia até vivenciar os efeitos que odiei plenamente. Talvez, se pudéssemos ficar apenas no sensorial, o ganho fosse significativo, uma terapia acelerada, mas não se tem escolha, as coisas simplesmente acontecem. Talvez se a dose tomada fosse menos generosa os efeitos devastadores não aparecessem, sei que pode ser assim por informação de meu filho, mas não vale a pena arriscar a menos que se conheça o grupo e se saiba que o controle é maior. O padrinho deste local é daimista há 21 anos e não sei o que este uso de 15 em 15 dias possa ter feito com seu discernimento.
Aqui vem gente de lugares distantes e me pergunto o que os atrai. Uruguaiana, Florianópolis, Curitiba. Longe demais uma vez que estas cidades também tem grupos daimista. No meu pequeno entender talvez venham aqui exatamente por que beberão muito e começo a compreender por que vem armados de colchonetes e cobertores, dormirão aqui para que o efeito se dissipe completamente.
Não posso deixar de fazer uma leitura psicanalítica e vejo uma justificativa forte para tomar este psicoativo poderoso que provoca, em primeira instância, contato sensorial com os sentimentos guardados em nosso inconsciente. Depois disso pode-se começar uma “viagem” psicodélica alucinante da qual tudo que eu queria era sair correndo. Cores, sons, imagens do que me cercava, mesmo de olhos fechados, existia em outra dimensão extrapolada, tudo era grande, extremamente colorido e, se possível descrever assim, redondo.
A ligação com o álcool também foi muito aguda com tudo que ele provoca. Levei minha mente de volta ao meu corpo e passei a sentir os efeitos da entrada da droga em minha corrente sanguínea. A contratação dos músculos das coxas, depois a zonzeira igual ao princípio de uma bebedeira, um sinal de que o mergulho seria mais profundo e os resultados péssimos, me dando apenas uma sensação de impotência e desgoverno de meu consciente. Sair deste estado foi uma luta constante, odeio a perda da racionalidade e tive a certeza desta verdade em mim. Queria vomitar e nada de ânsia de vômito, queria me levantar e tinha medo de cair. Ouvia as pessoas na volta em espasmos, lá fora, na grama. Isso era a espiritualidade?
Não consigo acreditar que encontrar com o mundo invisível seja esta coisa maluca e penso em Aldous Huxley e suas experiências com LSD para conhecer efeitos. Isso parece com LSD embora nunca tenha tomado, mas lido o suficiente. Já participei de tantos rituais espiritualistas, nenhum precisou de nada para abrir a sensibilidade.
No final das contas, o mundo espiritual é apenas uma parte de nosso mundo interno e é impossível, fora da fé, saber o que é real e o que não é, exatamente como com a ayhuasca. Tudo no mundo mental ou se acredita ou se descarta. Prefiro descartar esta mecânica perigosa. Se houver um gen de dependência em seu DNA o risco é imenso. Se gostar do efeito, lembre-se: o bom e fácil é um perigo iminente, se não gostar não volte mais para ver se aprende.
Vejo o padrinho “viajando” e falando coisas ridículas e infantis quando alguma pergunta parte deste pessoal crédulo que jura estar em contato com o mundo dos Orixás. Para mim ele é um encantador de serpentes que caça as mais terríveis que nos habitam, mesmo sob a forma de beleza. Entendo também que ficar tanto tempo “ligado” é impossível sem uso de alguma substância e por isso também no Batuque ou Candomblé se usa a bebida alcoólica. Nos trabalhos kardecista os atendimentos são rápidos apenas mentais, um cuidado para não permanecermos “tanto” do outro lado do mundo.
Analiso as pessoas que buscam o Santo Daime, muitas trêmulas e frágeis, outras mergulhadas em solidão e outras ainda apenas curtindo sob certa segurança o usufruto desta beberagem sagrada e psicodélica. Para mim são todas justificativas apenas, assim como um dependente químico as usa tão bem, escamoteando a verdadeira razão do uso que é o uso em si e seus efeitos.
Santo Daime quer mesmo dizer: Santo, dai-me o que preciso e se deixa a escolha do que precisamos para o santo, ou seja alguém ou algo escolhendo por nós, deixando à revelia nossa vontade sobre o que necessitamos, embora muitas vezes nem nós sabemos o que necessitamos exatamente, mas ainda prefiro o livre arbítrio com todas suas possibilidades de erros.
Voltar ao normal demora e isso me assusta e me dá culpa e raiva de ter sido tão ingênua. Quando o “padrinho” falou sobre terapia grupal e houve apenas comentários infantis sobre adoração ao Daime e a ele mesmo. Neste momento eu deveria ter visto o que se ativava sob este ritual e caído fora ligeirinho.
O budismo diz que tudo em que acreditas é verdade para ti. Fique cada um com sua verdade intransferível.
O acompanhamento dos aspectos negativos me deu certeza do que não quero para mim e o que não devo fazer por que quebrarei a cara. De certa forma um aviso de alerta bem consistente.
Como experiência sempre tem aprendizado é isso que carregarei comigo: o ódio mortal ao álcool, uma consciência espiritual que não precisa de nada para se manifestar, a dor que devo aprender a administrar por que não tem como arrancá-la e um até nunca mais, Santo Daime.


INFORMAÇÕES ADICIONAIS
Santo Daime
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Santo Daime

Santo Cruzeiro
Também conhecido como cruz de caravaca
O Santo Daime é uma manifestação religiosa surgida em plena região amazônica nas primeiras décadas do século XX. Consiste em uma doutrina espiritualista que tem como base o uso sacramental de uma bebida enteógena (para os psiquiatras, uma droga psicodélica, a ayahuasca, com o fim de catalisar processos interiores e espirituais sempre com o objetivo de cura e bem estar do indivíduo. A doutrina não possui proselitismo, sendo a pratica espiritual essencialmente individual, tendo o autoconhecimento e internalização comoo meios de obter sabedoria.
Segundo seus adeptos, a doutrina do Santo Daime é uma missão espiritual cristã, que encaminha os seus praticantes ao perdão e a regeneração do seu ser. Isto acontece porque o daimista, ao participar dos cultos e ingerir o Santo Daime inicia um processo de auto conhecimento, que visa corrigir os defeitos e melhorar-se sempre, para que possa um dia alcançar a perfeição (objetivo megalomaníaco na minha análise, ser Deus Perfeito não é para minha humanidade).
Nos rituais sempre há uma forte presença musical. São cantados hinos religiosos e são usados maracás, um instrumento indígena ancestral, na maioria dos locais de culto, além de violas, flautas, bongôs e atabaques.
Surgiu no estado brasileiro do Acre, no início do século XX, tendo como fundador o lavrador e descendente de escravos Raimundo Irineu Serra, que passou a ser chamado dentro da doutrina e por todos que o conheciam como Mestre Irineu. Após conhecer a bebida sacramental chamada de ayahuasca pelos nativos da região Amazônica, Irineu Serra teve uma visão de características marianas, em que um ser espiritual superior lhe entrega a missão do Santo Daime. (Muitos visionários dizem ter recebido missões divinas, grande parte terminaram em morte ou loucura – o grifo é meu).
Mestre Irineu não inventou a ayahuasca, foi apenas responsável pela cristianização do seu uso, rebatizando a bebida a partir do rogativo "Dai-me Amor", "Dai-me Firmeza". A nova seita religiosa mesclou elementos culturais diversos como as tradições caboclas e xamânicas, o catolicismo popular, o esoterismo e tradições afro-brasileiras.
Na década de 1930 inicia seus trabalhos espirituais com um pequeno grupo de seguidores nos arredores de Rio Branco e, com o passar dos anos, viu esse grupo aumentar em tamanho e importância no cenário acreano. Raimundo Irineu Serra faleceu em 6 de julho de 1971. Após seu falecimento, houve dissidências, sendo a mais famosa, a liderada por Sebastião Mota de Melo, a partir do início da década de 1980.
Em 2006, estimava-se em aproximadamente 10.000 os seguidores dessa doutrina no Brasil e no mundo. Há centros legalmente instituídos em quase todos os estados brasileiros e em países como Espanha e Países Baixos, além de grupos que celebram os cultos em países como Estados Unidos, Canadá, Japão, Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela e Portugal.
A doutrina ficou então dividida em duas vertentes principais:
Inúmeros centros independentes ou não diretamente ligados ao núcleo primeiro ou seu dissidente, surgiram após a expansão para o resto do país. Um dos mais recentes desdobramentos desta expansão é o surgimento de centros independentes, que promovem sincretismos com a Umbanda, O Espiritismo, o Hinduísmo (a incorporação de várias filosofias o colocou como experiência espiritaul da Nova Era – grifo meu).
O uso ritual de substâncias psicoativas como a ayahuasca vem sendo discutido em vários países. No Brasil, o CONAD (Conselho Nacional Antidrogas) do Brasil, retirou a ayahuasca da lista de drogas alucinógenas conforme portaria publicada no Diário Oficial da União em 10 de novembro de 2004, permitindo o uso ritual.
O ministro da Cultura, Gilberto Gil, encaminhou em 2008 ao IPHAN, um processo para transformar o uso do chá de ayahuasca, em patrimônio imaterial da cultura brasileira. (Fala sério! Não sei se Gilberto Gil tem competência para tal postura – grifo meu).

Liturgia


Estrela utilizada pelos fardados.

Nas várias linhas atuais há diversos tipos de trabalhos, sendo considerados trabalhos oficiais da doutrina os relativos a datas festivas (como São João, Natal), os trabalhos de concentração (realizadas nos dias 15 e 30 de cada mês), os trabalhos de cura como Estrela e São Miguel. Dentro da Linha do Padrinho Sebastião, há ainda trabalhos mediúnicos como de Mesa Branca (Umbandaime).
Os trabalhos de concentração e cura são feitos com os participantes sentados em seus lugares, sempre divididos em homens de um lado, e mulheres de outro, em volta da mesa central.
Há também os trabalhos de bailado, em que os participantes executam passos individuais e padronizados durante a execução dos hinos. São três os ritmos utilizados nas cerimônias daimistas tradicionais, a marcha, a valsa e a mazurca. Cada ritmo tem seu próprio toque de maracá e seu passo específico. O objetivo é executar os hinos e o bailado com a máxima afinação entre os participantes, a corrente, a fim de que se possa atingir um estado de elevação de consciência.
Para participar de uma cerimônia daimista, é necessário usar roupas preferencialmente claras, evitando decotes, bermudas e blusas sem manga. Além disso, as mulheres devem usar saias abaixo dos joelhos. Os Daimistas utilizam um vestuário ritual em suas cerimônias, chamadas "fardas" (herança da cultura cabocla de seu fundador onde um homem fardado merecia respeito – meu grifo), sendo elas de dois tipos: uma chamada de farda branca e a outra chamada de farda azul, possuindo variações para homens e mulheres. Todo Daimista fardado traz na sua farda sobre o peito esquerdo a estrela de Salomão com a águia e a lua crescente, simbolizando uma visão do Mestre Irineu.

Fora da Amazônia


Cipó Jagube.
A "doutrina da floresta" acabou por se expandir pelo Brasil e pelo mundo. Ganhou muitos novos adeptos, incluindo pessoas famosas e de destaque na mídia. Como uma das características do Santo Daime é o conceito de Centro Livre, ou seja, o antidogmatismo e o não-sectarismo religioso, passou a sofrer influencia de diversas tradições espiritualistas e a dar origem a outras vertentes, muitas das quais distanciaram-se muito da doutrina do Mestre Irineu. Ao penetrar em áreas onde era grande a influência de religiões afro-brasileiras, acentua-se as influências negras que já estavam presente em menor escala na doutrina. Influencia a Umbanda também, pois esta passou a utilizar o chá em alguns pontos.
Existem diversos cultos espalhados pelo Brasil e pelo mundo que utilizam a ayhuasca como sacramento, como a UDV (união do Vegetal), proveniente de Rondônia, os "ayhuasqueiros" que utilizam a bebida de forma independente ou não-ritualistica, e que não devem ser confundidos com o Santo Daime.
Nos grandes centros do país, o Daime passou também a ser praticado por grupos de pessoas que já possuíam crenças alternativas, como as religiões orientais. Portanto o Santo Daime em alguns locais recebeu essas influências, em detrimento de suas origens caboclas. Apesar disso, as linhas autênticas de Daimistas estão empenhados e compromissados em manter e preservar as tradições do Santo Daime da forma como esta Doutrina foi vertida da floresta para o resto da humanidade.

Legislação para uso do chá


Dimetiltriptamina, ou DMT, o princípio ativo da ayahuasca.
Em janeiro de 2010 o governo brasileiro formalizou legalmente o uso religioso do chá ayahuasca, vetando o comércio e propagandas do mesmo, que só poderá ser utilizado com fins religiosos e não lucrativos, com a criação de um cadastro facultativo para as entidades que o utilizam. A bebida chegou a ser proibida no país em 1985, sendo liberada dois anos depois, e ocorreu uma nova tentativa de proibição nos anos 1990. Atualmente não havia impedimento para o uso do chá em cerimônias religiosas, porém não existiam orientações para o seu uso em conformidade com o direito.

Atualmente
Diversos centros estão espalhados pelo Brasil, a maioria seguindo fielmente a vertente originada na Amazônia por Mestre Irineu, estima-se que hoje em dia sejam cerca de 15000 adeptos em constante crescimento e contam com uma organização solidária e sem fins lucrativos (embora sob a égide de contribuição para o lanche distribuído, todo ele doado por “fardados”, pague-se um determinado montante - grifo meu).
Alguns centros estão situados em grandes cidades como São Paulo (Céu Sagrado, Jardim de Belas Flores, Céu de Maria, fundado pelo cartunista Glauco, e Céu da Capela, este último liderado por Padrinho Alexandre).
Em 2010, o cartunista Glauco Villas Boas foi assassinado por uma pessoa que frequentou a doutrina. A família do assassino acusa o consumo do chá, de levá-lo a ter delírios psicóticos que desencadeou o assassinato ( o uso da ayhuasca deve ser totalmente vetado a portadores de doenças mentais – grifo meu).
Cruz de Caravaca

A Cruz de Caravaca, também conhecida como Cruz de Lorena e Cruz de Borgonha, é uma relíquia cristã de origem espanhola.
Segundo a tradição, apareceu por milagre na cidade de Caravaca, Espanha, em 3 de Maio de 1232, e, por conter fragmentos do lenho da cruz de Cristo, eram-lhe atribuidos muitos milagres.
Em 1934 a cruz medieval desapareceu misteriosamente, sendo mais tarde foi restaurada por doação, pelo Papa Pio XII, de dois fragmentos do Santo Lenho.
A lenda medieval
De acordo com a lenda, à época da Reconquista cristã da península Ibérica, a região era governada pelo sultão Abu Zeyt e, na cidade de Caravaca havia prisioneiros, sendo um deles o sacerdoteGines Perez Chirinos.
Manifestando Abu Zeyt curiosidade sobre as práticas católicas, decidiu presenciar uma missa, ordenando que o sacerdote cativo lhe celebrasse uma. No dia marcado, o governante reuniu toda a sua família e corte para presenciar a cerimónia, dando ordens para que fosse dado ao sacerdote tudo o que ele necessitasse para o culto. À última hora, o sacerdote lembrou-se de ter esquecido a cruz. Com temor e com vergonha, antecipando a punição por sua falha, viu surgir, do nada, na janela acima de si, dois anjos carregando uma cruz de dois braços, toda de ouro e pedrarias.
O sultão e todos os muçulmanos presentes, impressionados, converteram-se ao catolicismo.

domingo, 23 de janeiro de 2011

AVIA MENTES

Hora do almoço.
Ufa, era sempre uma boa hora. Trabalho por necessidade, já poderia estar aposentada, mas os compromissos impedem o ansiado afastamento.
Estou com um peso muito acima do que posso carregar, então, mesmo que não é o regime i-deal, eu não almoço. Como uma porcaria qualquer e finjo que está ótimo. Sobra tempo para bater perna e fazer coisas que tornem o dia suportável.
Já está mais do que na hora de morrer, os algozes lá de cima não me dão esse brinde.
Ontem perdi um botão de meu casaco de guerra, preciso dar um jeito de encontrar outro igual. Adoro visitar a loja de aviamentos. Trancelins, fitas, aplicações, sianinhas, linhas de todas as cores, agulhas, tesouras especiais... Ai, meu peito se enche de alegria. Imagino as maravilhas que faria com essas belezuras.
Vim aqui procurar botões, me doutrino. Vou apenas olhar as outras coisas. Só de brincadeira.
Ana Cristina mexe e remexe nos balaios de promoção, é o que mais gosta. Sempre encontra alguma coisa imperdível. Não é supérfluo, amanhã ou depois precisará e, com certeza, terá que pagar o preço alto normal. No fundo é economia.
Em meio ao colorido desejo, ela está bem, leve. Esquece a família maluca que a come por uma perna. Um pensamento de lembrança atravessa a tranqüilidade. Franze o rosto, tem que visitá-los hoje, levar o rancho por que são incapazes de se manterem. Dependentes de tudo e para tudo.
Precisa não se esquecer dos pirulitos para o cachorro. A irmã diz que o bichinho chora se não come as bolas açucaradas. Aumentar a quantidade de leite. O cunhado é viciado em leite. Quem não acredita que vá ver. Três litros por dia, tomados às escondidas, a caixa cheirando o sovaco para ninguém ver e o copo sempre cheio na mão.
Quem paga as insanidades? Ela. Ana Cristina.
Cinco sobrinhos, seus filhos que por sua vez são piores que coelho, já tem rebentos. Criança para todo lado. Todos pendurados na casa da irmã que, por sua vez, pendura-se nela. Um varal de gente superposta umas às outras. Nem sabe como conseguem manter uma certa identidade na mistura promíscua de necessidades.
− Ah, que lindo este bordado inglês!
− É novidade. Lançamento. Lindo em dourado, não é mesmo? Temos também com prata. Vou mostrar.
− Eu vim procurar botões...
− Só para conhecer. Os botões temos em promoção.
Sacos e sacos de botões de todos os feitios e cores são espalhados no balcão.
− Um real cada. Uma oportunidade que não sei quando repetiremos.
Ana Cristina faz cálculos rápidos. É boa em números. Vive de adições, diminuições, multiplicações e divisões; principalmente divisões. Só de pensar em abandoná-los sente falta de ar, uma arritmia no coração. Só de pensar em gastar no mercado para eles, dá uma raiva terrível.
Separa quatro pacotes de botões, o bordado inglês lançamento, duas metragens de fitas e uma agulha própria para chuleados.
Sai.
Alguns metros à frente tem uma loja de artigos para bijuterias. Precisa ganhar mais dinheiro. Ouviu a notícia de que o leite subirá. Entra.
O curso de bijuteria foi muito útil. Precisa apenas de mais variedade de miçangas, contas e montadores. Talvez devesse levar mais uma caixa para guardar. Gosta das caixinhas repartidas por que fica tudo organizado, sem misturar o que facilita bastante o trabalho.
Chega à repartição carregada de coisas. Não tem nada de serviço para fazer e o chefe é muito mais moço que ela, tem respeito. Pode fazer o que quiser que ele não reclama, sorri e balança a cabeça: Essa Dona Ana...
Ela esparramou os botões sobre a mesa. São dezenas. Separa como quem cata feijão: cada tipo, cada cor, cada formato. Conversa com eles em pensamento, não será tão louca a ponto de falar em voz alta:
− Fica aqui, com teus irmãos. Tu, não, tua família é outra. Sozinho? Coitado... Não liga, é bom, ninguém te torra a paciência e nem te cobram nada. Família é um mal necessário. Imagina o que eu faria sem a minha? Estaria internada, com certeza. É por isso que ajudo. Não como tentam me convencer que sinto culpa por ter e eles não. Já passei os pecados, o pão que o diabo amassou. Como poderia sentir culpa?
Controlá-los? Deus me livre! Claro que do jeito que vivem é preciso estar aconselhando, cortando as arestas que nascem mais que erva daninha. Tira um ranço vem outro. São como crianças. Bem que gostaria de me livrar, mas...
Termina o expediente, ela junta toda a tralha separada em saquinhos que comprou na hora do cafezinho. Gosta de organização, tem que ser tudo padronizado. Nada de bagunça, um saco de cada jeito, de aproveitamento. Nada disso. Todos iguais.
Chega em casa e está contente, as compras nas mãos revigoram, passam uma sensação boa de preenchimento. São coisas dela, só dela.
O telefone toca. É o cunhado:
− Acabou a carne, os pobres cachorros, oito, não podem comer outra coisa, enfraquecem.
Ela corta o papo:
− Esteves, não tenho mais dinheiro. Vocês deixam de comer carne e dão para os cachorros. Pára de tomar tanto leite e dá a eles. Vocês pensam que sou saco sem fundo? Têm que aprender a administrar a comida. Parar de chamar a pobre vizinhança sem eira nem beira para comer aí.
− É tua irmã. Está doente, bem sabes quanto. Tu não tens coração. Ela é boa, caridosa. Meu salário se vai num vapt. Tens que ajudar.
Ana Cristina está indignada. Uma raiva disforme. A imagem da irmã, imensa, rodeada de cães, com um chicote de palavras na mão para ela e o marido. Para os demais a doçura do sentimento. Sente uma insuportável vontade de chorar. Que vida mais idiota, quer partir para lugar algum. Se ao menos a imagem do pai não voltasse junto.
É igual ao pai, servindo e servindo.
− Eles mudarão, ah, se mudarão!
Sabe que está falando asneira, eles não mudarão e nem ela.
Pega a bolsa e sai na noite fria. O supermercado é logo ali.
Mas é só mais dessa vez...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A PAIXÃO PELA DROGA






Como gostamos de nos apaixonar! Dependente gosta ainda mais.
Sem paixão tudo parece morto, sem graça. Não há frenesi, nem adrenalina correndo solta. Tudo que um adicto quer é adrenalina, custe o que custar. Sua insatisfação interior é tão grande, o mundo externo tão difícil que paga o alto preço da derrocada física e mental para ter ou um pouco de esquecimento (alcoolismo), um pouco de paz e relax (maconha) ou um pouco de excitação (cocaína).
O coração dispara ao ver o causador da paixão, do suor nas mãos. O papelote de coca, o cigarro enrolado em papel fino, um copo com a garrafa ao lado, de preferência.
Causador da paixão...
Paixão causa dor, enlouquecemos, perdemos os parâmetros, não enxergamos a pessoa, ou o que a catalisa. Na verdade ela se torna um meio e não um fim. Não é importante, embora nos pareça a situação mais importante do mundo, única e insubstituível. A droga é única e insubstituível. Princípio, meio e fim. Em si mesma.
Vemos apenas a paixão. Enganamo-nos dizendo que é um rosto, um olhar, um copo, um bagulho qualquer...
Não é nada disso, é apenas uma emoção sedutora tique taqueando dentro de nós, acelerando o sangue, tirando o sono. Tornando-nos escravos de um tilintar de telefone, de um traficante, de um bar ou qualquer local que venda bebida. Mais bonito do que qualquer castelo, paisagem, companhia.
Relações morrem quando a paixão se acaba.
Pessoas maravilhosas tornam-se insuportáveis. Também pudera! Nós jamais a conhecemos realmente.
Não conseguimos vê-la, o véu apaixonado encobria nossos olhos e tínhamos apenas sentidos. E, na maior parte das vezes, o pior de todos: o possuir, o reter. Queremos que o motivo de nossa paixão seja apenas nosso, que se esqueça de sua vida, de sua vontade, que se torne um prolongamento de nosso desejo, um apêndice com cara diferente da nossa. Essa é situação dos que se tornam dependentes de emoção, sensações eufóricas do amor desviado.
A droga nos pertence, só não percebemos que nós muito mais a ela pertencemos. Se torna a nossa paixão, a nossa vida.
Pode agregar outro ingrediente: nós perdemos nossos objetivos, anseios, metas já estabelecidas. Absorvemos as do outro, nos tornamos o outro. Tudo se mistura e a individualidade se perde. O que não é perdido na dependência, seja ela qual for?
Amamos a paixão por que ainda somos infantis e imaturos. A Humanidade é adolescente dentro de seu desenvolvimento e crescer dói, retardamos esse crescimento. Agarramo-nos ferozmente à paixão que nos absorve para não termos que enfrentar nossas verdades nem tão bonitas como gostaríamos infantilmente que fossem. O dependente é um imaturo em sua substância, uma criança que não abre mão de seu brinquedo, mesmo que seja um jogo que machuca e mata.
Esquecemos que somos humanos e que isso pode nos dignificar e não nos tirar o tesão de viver. Este reside na capacidade que temos de enfrentar o tempo que passa. Acreditamos que o tempo pode nos encolher, quando na verdade ele nos expande, nos torna mais compassivos, menos egoístas, se crescermos bem. Altera-nos e corrompe se olhamos apenas o exterior como é moda nestes tempos em que vivemos. O externo, a casca, o verniz se tornou mais importante do que a alma. Vivemos a Era Coca-cola, tudo é descartável como uma latinha de refrigerante. A vida principalmente, então não importa o quanto imundicemos nossos corpos, o quanto o coalhamos de porcarias as mais diversas.
Não somos eternos, pelo menos não na matéria, mas talvez o sejamos no espírito. E se formos eternos no espírito teremos posto fora a oportunidade de o expandirmos. Ele não reside em nosso corpo, mas em nossa alma, psique, ou seja lá o nome que queiram dar. A droga rompe nossa ligação com o Eterno, com a Espiritualidade que pode ser, para alguns, até um simples relacionamento humano.
Não podemos impedir o céu de chover, a noite de chegar, a planta de florescer, mesmo que isso, momentaneamente faça o sol adormecer, o dia descansar, a planta fenecer, mas podemos e muito intensamente brecar nosso desenvolvimento e a capacidade de estarmos em paz conhecendo a doçura do amor e permitindo que a paixão seja veículo de vida quando submetida aos padrões defensores de nossa integridade enquanto seres humanos que respeitam a natureza que reside dentro de nós e nos faz nascer, crescer e morrer.
Não sabemos se a morte é um fim em si mesmo. Amamos tanto a aparência que preferimos crucificar nossa alma em benefício dela.
A paixão não enaltece o amor, ela o banaliza. O transforma em emoção e não permite que se desenvolvam as raízes alimentadoras do amor, da tolerância para com a imperfeição do outro.
A paixão não é sentimento, é emoção e existe uma diferença visceral entre os dois. A primeira morre, é falível. O segundo é verdadeiro e intransferível. Ela é transitória, ele é permanente.
A paixão não fala, grita. O sentimento fala e nos conduz mesmo quando estamos desencontrados. Apenas ele pode nos mostrar nossa verdade e transformá-la se o questionarmos e direcionarmos. O sentimento sussurra, a emoção pressiona. O dependente tem medo de seus sentimentos por que foi acostumado a julgá-lo inferior e feio.
Quase não sabemos amar. O que chamamos de amor pelo outro é encantamento, magia, deslumbre. E como nos deslumbramos bem quando estamos encharcados de álcool, cocaína, ou qualquer outra coisa que transforme nosso comportamento e sentimento,
Apaixonamo-nos pelo amor sem conhecê-lo transferindo-o para sensações que afogam a si mesmas. Confundindo o outro e a nós. Nos confundindo com a personalidade dissonante que aprece ao nos drogarmos.
A paixão é engodo, é chama passageira. O amor permanece no continuar do tempo. A paixão é sexual, o amor é integral, contém sexo, mas não é apenas isso. A paixão é instante, o amor é desdobrar do tempo.
Como a paixão morre, morremos juntos um pouco, como o amor é contínuo, permanecemos mais presentes, mais permanentes. Como, enquanto dependentes, descartamos a continuidade por temê-la, o instante se torna o bem maior.
Estamos abertos à paixão quando nossa psique cansada de procurar desenvolvimento resolve tirar férias.
A paixão pode ser ótimo sinalizador de que alguma coisa, algum pedaço de nós que não encaixou no seu devido lugar dentro de nosso coração.
A paixão é flecha, o amor é alvo. Ela voa, ele aguarda.
Que bom analisar a paixão como veículo para questionar nossa estabilidade sempre transitória. Precisamos mudar. Transformarmo-nos. Tudo no Universo se movimenta, nós também. O movimento cósmico é percebido na trajetória dos astros, o movimento humano é percebido no anseio de reformular aonde e como estamos.
A paixão não necessita de pessoas, se satisfaz com objetos e neste momento é quando mais nos emburrece e nos torna coisa.
Parece que sem nos apaixonarmos por trabalho, drogas, situações, pessoas, estamos amorfos.
Ah, criança humana, cresce logo. Urge crescer. Urge nos tornarmos inteiros e não parte. Só o inteiro completa a parte que representamos na dança da Vida.
Amamos a paixão e não as pessoas. Amamos o estado e não o ser. Amamos a droga e não a nós mesmos.
Paixão da minha vida despeço-me de ti por que desejo viver e não apenas transitar.

Vana Comissoli

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

DEPOIMENTO INDIGNADO COM NOSSA "CULTURA"

Eu acho a bebida o pior vício. Pior do que o cigarro ou o até mesmo o crack. Porque você pára e continua submetido a uma enxurrada de propagandas, filmes etc relacionando bebida a status, relax, elegância, futebol, comemoração, sociabilidade.
O crack pode ser uma merda, mas ele não faz parte do imaginário coletivo: ele alcança uma minoria que já está na merda por outros meios. Já a bebida pega qualquer um, e pode ser aos poucos ou desde cedo; pode ser por questões psicológicas e/ou químicas. E é exaustivamente massificada.
Elas variam (vinho, cerveja, whisky, vodka, cachaça, licor etc) e não podemos esquecer que a maioria surgiu nos monastérios da Europa; o que dá uma nota, mais uma vez, de permissão ao nosso imaginário.
Quase todo mundo bebe e aquele que precisa parar de beber se sente rejeitado. E quando esse alguém bebe o primeiro copo, pode ser uma vontade natural, como a de tantos outros. Porém, após o primeiro ou segundo, outros fatores o levam a continuar e o copo a se esvaziar etc.
A questão coletiva ajuda muito na adicção.
Por exemplo, os grandes jazzistas dos anos 30/40, nos EUA, eram viciados em heroína. E quem não fizesse parte era considerado careta; e não poderia acompanhar os melhores músicos. Isto foi num ambiente fechado como o do jazz.
Em alguns setores é quase considerado normal cheirar cocaína, um primo meu vivenciou uma situação dessas. Como ele não se “enquadrava”, acabou desistindo.
Agora, imagine em um ambiente totalmente aberto ao coletivo onde permeiam todas as formas de mídia a drinks e bebidas alcoólicas!
It´s not mole não, como dizia um amigo.
Disse tudo isto para que procure entender como deve ser o seu sofrimento de se sentir “de fora” do que ‘todos’ podem: se ele assiste futebol, lá vem propaganda de cerveja; se passa imagens da Serra Gaúcha, na TV, lá está o casal tomando vinho à lareira; em filmes e novelas, o executivo chega em casa e toma uma dose de scotch, ou oferece a uma visita “aceita um drink?”
Alguns conseguem beber por prazer sem ultrapassar um traço os limites da sanidade, outros bebem para “tontear” e outros ainda para “capotar”. E até a situação irreversível se apresentar não podemos ter certeza se não entraremos neste tobogã de horrores.
Não há outra expressão: é foda!







Eu acho a bebida o pior vício. Pior do que o cigarro ou o até mesmo o crack. Porque você pára e continua submetido a uma enxurrada de propagandas, filmes etc relacionando bebida a status, relax, elegância, futebol, comemoração, sociabilidade.
O crack pode ser uma merda, mas ele não faz parte do imaginário coletivo: ele alcança uma minoria que já está na merda por outros meios. Já a bebida pega qualquer um, e pode ser aos poucos ou desde cedo; pode ser por questões psicológicas e/ou químicas. E é exaustivamente massificada.
Elas variam (vinho, cerveja, whisky, vodka, cachaça, licor etc) e não podemos esquecer que a maioria surgiu nos monastérios da Europa; o que dá uma nota, mais uma vez, de permissão ao nosso imaginário.
Quase todo mundo bebe e aquele que precisa parar de beber se sente rejeitado. E quando esse alguém bebe o primeiro copo, pode ser uma vontade natural, como a de tantos outros. Porém, após o primeiro ou segundo, outros fatores o levam a continuar e o copo a se esvaziar etc.
A questão coletiva ajuda muito na adicção.
Por exemplo, os grandes jazzistas dos anos 30/40, nos EUA, eram viciados em heroína. E quem não fizesse parte era considerado careta; e não poderia acompanhar os melhores músicos. Isto foi num ambiente fechado como o do jazz.
Em alguns setores é quase considerado normal cheirar cocaína, um primo meu vivenciou uma situação dessas. Como ele não se “enquadrava”, acabou desistindo.
Agora, imagine em um ambiente totalmente aberto ao coletivo onde permeiam todas as formas de mídia a drinks e bebidas alcoólicas!
It´s not mole não, como dizia um amigo.
Disse tudo isto para que procure entender como deve ser o seu sofrimento de se sentir “de fora” do que ‘todos’ podem: se ele assiste futebol, lá vem propaganda de cerveja; se passa imagens da Serra Gaúcha, na TV, lá está o casal tomando vinho à lareira; em filmes e novelas, o executivo chega em casa e toma uma dose de scotch, ou oferece a uma visita “aceita um drink?”
Alguns conseguem beber por prazer sem ultrapassar um traço os limites da sanidade, outros bebem para “tontear” e outros ainda para “capotar”. E até a situação irreversível se apresentar não podemos ter certeza se não entraremos neste tobogã de horrores.
Não há outra expressão: é foda!

Depoimento de filha de alcoolista

Se você é pai, ou mãe dependente, perceba o impacto de sua doença sobre seus filhos!
Pense, reflita, questione e crie coragem para dizer NÃO ao álcool ou às drogas. Eles destroem tudo até a coisa mais importante do mundo: a imagem de um pai que deveria nortear a vida do filho, não como perfeito, mas o melhor possível.
Deixar-se vencer pelas drogas ou álcool é o pior possível.
***********************************************************************************

Meu pai fumou durante 50 anos, desde os 13, parou faz um ano. Bebe diariamente seus tragos divididos em no mínimo 3 vezes, sei lá, desde os 35 anos mais ou menos. Percebeu, felizmente, que precisava parar, assim como o fez com o cigarro.
Ele conta que é bem difícil.
Como é muito orgulhoso, jamais admitiu ser alcoólatra, e nós, a sua esposa, eu (filha) e o filho, não insistimos no termo tão pesado a ele.
No Natal que passou, ele estava sem beber há uns 4 meses, estava tão calmo, tão feliz e sereno. Não complicou, nem se irritou com ninguém.
Ah, e seus "carteiraços" diminuíram.
Carteiraços era quando ele impunha sua opinião goela abaixo dizendo que tinha mais de 60 anos e sabia mais que todo mundo, passando por cima de todos feito um trator, humilhando se fosse o caso para fazer valer suas idéias.
No Ano Novo voltou a ser a figura difícil que te descrevi, por que voltou a beber. Menos, mas bebeu. Pedimos para que ele parasse, ele parou, contudo uma tristeza o tomou. Também a nós.
A notícia boa é que agora tenho certeza de que meu pai é maravilhoso, sem a bebida, mas ele é.
Antes, já não sabia mais quem ele era. Lembrava de um pai tão gentil e carinhoso, tão especial, de qual eu tinha tanto orgulho. Não era mais ele. Só agora tenho a certeza de que ele ainda está lá, por de trás daquele trago, ele ainda está lá. Isso me deixou tão feliz. Só me entristeço em saber o quanto ele sofre e jamais aceitará ajuda, por que jamais assumirá sua condição.
Um grande abraço e obrigada por dividir esclarecimentos tão importantes a quem os necessita.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

QUESTIONAMENTO

EDIÇÃO DO ZERO HORA DIA 13/11/ 2009

CONTRA AS DROGAS
Uma nova visão sobre o tratamento dos viciados
Confinar os dependentes químicos em clínicas e fazendas terapêuticas é uma estratégia pouco eficaz de combater a epidemia de crack. Quem alerta é o americano Henry Kranzler, considerado uma das maiores autoridades internacionais de dependência química, que falará aos gaúchos hoje e amanhã, em evento gratuito em Porto Alegre.

Professor de psiquiatria e genética e desenvolvimento biológico da Escola de Medicina da Universidade de Connecticut, com mais de 300 artigos publicados em revistas científicas internacionais, o professor participará do encontro Neuroquímica da Dependência, promovido pelo Hospital Mãe de Deus, a partir das 19h30min de hoje.

Com experiência de mais de 20 anos em pesquisas em genética e tratamento farmacológico para dependências químicas, com apoio do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, Kranzler argumenta que o paciente precisa aprender a lutar contra a droga em sua própria realidade – recebendo acompanhamento e incentivos para se manter longe do vício.

– O problema é que ninguém pode viver internado. Eles têm de viver suas próprias vidas. Então talvez seja melhor ensinar a não usar drogas desde o começo, na sua própria base – analisa.

Confira a entrevista concedida a ZH ontem à tarde pelo psiquiatra no Hospital Mãe de Deus, antes de seu passeio para conhecer o Museu Iberê Camargo:

leticia.duarte@zerohora.com.br

CONTRA AS DROGAS
“Ninguém pode viver internado em hospitais”
ENTREVISTA - Henry Kranzler Médico psiquiatra

Zero Hora – Nós enfrentamos uma epidemia de crack, e os tratamentos existentes parecem pouco efetivos. Há boas experiências em novos tratamentos em outros países?

Henry Kranzler – Os tratamentos não funcionam nos Estados Unidos também. O melhor tratamento provavelmente é a prevenção. Nós não temos boas medicações para tratar a dependência de cocaína, nem de crack. A maior parte dos tratamentos é psicossocial. A melhor estratégia em é conter o paciente associando o bom comportamento a recompensas.

ZH – Como isso funciona?

Kranzler – Tenho uma colega que estuda isso, e o que ela faz: ela tem uma espécie de aquário, sem água, nem peixes. Em vez disso, o aquário é cheio de papéis, e cada um diz: você ganhou U$ 3, ou você ganhou um ticket para o cinema, mas também há prêmios maiores, como uma TV. É como se fosse uma loteria. Se o exame de urina mostrar que o paciente não ingeriu drogas, o paciente pode tirar um papel. E sempre ganha alguma coisa. É uma forma de estimulá-lo a se manter limpo. A dificuldade das medicações é que algo que funciona para uns não funciona para outros.

ZH – Já foram mapeadas particularidades genéticas ligadas ao risco de se tornar dependente dessas drogas?

Kranzler – Sim, mas não está claro qual é o gene específico que identifica o risco da dependência. Já foram identificados genes específicos para o tabaco, para a dependência de álcool, mas, para cocaína, não. Já sabemos que existe alguma origem cromossômica, mas não sabemos qual é o gene específico ainda. Não é como uma Síndrome de Down, que você pode ver a diferença.

ZH – Por que é tão difícil tratar o crack?

Kranzler – É porque a cocaína (da qual deriva o crack) é uma droga muito potente, que atua diretamente no sistema cerebral, e dá muito prazer. Existem estudos com animais que tiveram acesso à cocaína e consomem até morrer, de tanto prazer que sentem. O problema é como interromper o impacto da cocaína no cérebro.

ZH – Nos Estados Unidos, o crack também é uma epidemia?

Kranzler – Era, mas a heroína está se tornando mais popular. Imagino que tem a ver com a tendência internacional da droga.

ZH – O que os pais podem fazer para proteger os filhos?

Kranzler – Os pais têm de prestar atenção, conversar, estar envolvidos com a vida dos filhos. Um dos problemas do abuso de drogas é que os usuários usam droga como uma forma de encontrar prazer em suas vidas. Se você tem outras formas de prazer, isso diminui o risco. Então, essa é uma estratégia importante de prevenção: ajudar esses adolescentes a encontrar outros espaços de prazer.

ZH – No Brasil, uma das dificuldades é encontrar lugares para internar os filhos, pois a estrutura de atendimento é precária. Como é nos Estados Unidos?

Kranzler – Não é tão boa como poderia ser. Também existem muitos programas, mas não são integrados.

ZH – E qual seria o tratamento ideal para crack?

Kranzler – Se alguém viesse se tratar comigo, eu tentaria algumas medicações como o topiramato (contra a fissura) e o incluiria em programas de controle com recompensa.

ZH – O senhor não recomenda a internação dos pacientes?

Kranzler – O problema é que ninguém pode viver internado em hospitais. Eles têm de viver suas próprias vidas. Então talvez seja melhor ensinar a não usar drogas desde o começo, na própria base dos pacientes. Os pacientes precisam é aprender outras fontes de prazer para aproveitar a vida.
Cinco lições
1) Não menospreze o álcool e cigarro: as drogas legais são a principal porta de entrada para drogas mais pesadas, como o crack
2) Preste atenção ao seu filho: estar por dentro da rotina é essencial para a prevenção
3) Invista em atividades prazerosas: geralmente o dependente busca a droga como uma fonte de prazer. Se tiver outras fontes de satisfação em sua vida, terá menos chances de procurá-la na pedra
4) Ofereça recompensas pela abstinência, o que aumenta a adesão dos pacientes
5) Evite a internação: como terá de voltar para casa depois, é melhor que o paciente aprenda a permanecer longe da droga em casa, senão recairá

QUESTIONAMENTO DE ADICTO EM RECUPERAÇÃO
Vana:

A Minha Indignação é :

Veja a loucura deste médico!!!!!! E do jornal ao publicar esta matéria!!!

1º Imagine um cara em síndrome de abstinência aguda em crack, em casa, depois dele já ter levado para o traficante a TV, o som, o botijão de gás etc... Sua mãe vir com um comprimidinho de topiramato ( ahahahahah ) e com o tal aquário. Quero ver esse médico propor este tratamento para aquela mãe que fez uma cela ( dentro da sua casa ) para o filho viciado e mesmo assim ele fugiu, tão noticiada pela RBS.
2º como é que o tal especialista cita o nome do remédio: topiramato ( o cara é patrocinado por alguma indústria farmacêutica ?). Eu tomo esse remédio, e vai por mim, não é lá essas maravilhas, todas as minhas recaídas eu estava tomando topiramato!!!! Além disso, abrem-se precedentes para que o leitor do jornal pratique a automedicação. Sabe-se que ainda hoje se consegue comprar remédios sem receitas por ai.
3º Aos olhos de quem não conhece o problema passa, ao ler esta reportagem, que o viciado em crack é um baita sem vergonha mesmo, imagina só!! Basta dar um comprimidinho e um ingresso para o cinema ou uma bicicleta que o cara larga o vício!! Não pára porque não quer!!!!!!!!!!!!!!!!
4º Para o adicto, cadê suas conquistas próprias, estar limpo por sua própria vontade, por seu bem querer, porque vale a pena viver, e não por um sistema de recompensas ( o tal aquário né!!! ) que muitas vezes é o motivo pelo qual o levou as garras da adicção ativa, no sentido de que os pais sempre compraram materialmente o que não puderam dar emocionalmente.
5º Será que a jornalista publicou tudo o que o médico realmente disse na entrevista ? ou apenas alguns trechos? Comprometendo assim a matéria e pior sendo de uma irresponsabilidade sem tamanho.
6º do que adianta a RBS nos bombardear com a campanha “ Crack nem pensar “ se coloca profissionais para cobrir as matérias ou médicos ditos especialistas que mais atrapalham do que ajudam!!!!!!!!!!!!!!! E outra, temos que parar de achar q porque é americano ( o tal Dr é o Sr sabidão ), aliás, estaria vendido para o hospital mãe de Deus?

Vana!!! Vc que tem o dom da palavra, e é claro se concordar com isso, coloca tudo direitinho, com tuas sábias palavras e manda e-mail para Zero Hora, para essa tal Letícia Duarte, que é a colunista desta matéria., se tu tiveres tempo e achar necessário.
Um bj, me manda o q tu escreveste!
Um bj. Paulo






QUESTIONAMENTO À ZERO HORA

Em resposta a entrevista veiculada neste jornal dia 13/11 gostaria de colocar a importância de discussão sobre o assunto. A opinião de apenas um terapeuta, seja ele formado nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo, é escassa demais para doença tão séria.
Certamente a extensão do problema, mesmo que superficialmente, é conhecida por toda a sociedade. Não é mais possível nos portamos como avestruzes e ignorá-lo. No entanto, é fundamental uma análise menos rasa. O Brasil possui excelentes profissionais capacitados que convivem diariamente com adictos dentro de clínicas.
Com certeza o tratamento objetiva a inserção do usuário na família e na sociedade e sua conscientização. Disso nonguém discorda.
É, por isso mesmo, estranho que o Dr. Henry Kranzler, tão renomado (gostaria de saber quais órgãos internacionais assim o consideram. A vacuidade de informação me leva a crer que é uma auto titulação) trate um doente de dependência com a técnica Pavloviana do Reflexo Condicionado.
Serão os usuários ratos de laboratório que se treina com uma gratificação ao acertar o caminho do labirinto? Ou cães que aparecerão no próximo filme da Disney sentando e batendo palminhas?
E os tremendos problemas da desintoxicação que podem levar facilmente um adicto à abstinência dolorosa e até paranóica? Qual família está preparada para dar este apoio? A enfrentar este abismo de desconhecidos?
A internação é apenas parte de um processo que levará toda a vida do dependente. A conscientização não se faz através de brindes, mas de terapia prolongada e contínua por terapeutas de profundo conhecimento e humanidade.
Façamos uma divagação:
Usuário afastado da droga em plena abstinência inicial recebe uma barra de chocolate de seu (pretensamente confiável) terapeuta. Cai na risada, pela chocante simplificação e atira na cara do profissional, não antes de quebrá-la inteira. Possível acesso de raiva posterior.
Se tem alguma coisa que fica clara nesta entrevista rasa e carregada de esdrúxula opinião é o desrespeito pelo ser humano que existe, desesperado, atrás de um “viciado”.
Na verdade, este “tratamento” está carregado do mais nefasto item da dependência: a manipulação.
A jornalista Letícia Duarte deveria se inteirar um pouco mais sobre o assunto e não ir a campo crua como foi. Quem sabe ela aprende um pouquinho? Quem sabe alarga os horizontes e faz perguntas mais substanciais? Que esclareçam mais do que uma resposta tão ao gosto do Behaviorismo que os americanos amam por conseguir “fazer uma cabeça”.
Aí vai uma ajudinha:
Dependência é o impulso que leva a pessoa a usar uma droga de forma contínua (sempre) ou periódica (freqüentemente) para obter prazer. Alguns indivíduos podem também fazer uso constante de uma droga para aliviar tensões, ansiedades, medos, sensações físicas desagradáveis, etc.
O dependente caracteriza-se por não conseguir controlar o consumo de drogas, agindo de forma impulsiva e repetitiva. Para compreendermos melhor a dependência, vamos analisar as duas formas principais em que ela se apresenta: a física e a psicológica.
A dependência física caracteriza-se pela presença de sintomas e sinais físicos que aparecem quando o indivíduo pára de tomar a droga ou diminui bruscamente o seu uso: é a síndrome de abstinência. Os sinais e sintomas de abstinência dependem do tipo de substância utilizada e aparecem algumas horas ou dias depois que ela foi consumida pela última vez. No caso dos dependentes do álcool, por exemplo, a abstinência pode ocasionar desde um simples tremor nas mãos a náuseas, vômitos e até um quadro de abstinência mais grave denominado "delirium tremens", com risco de morte, em alguns casos.
Já a dependência psicológica corresponde a um estado de mal estar e desconforto que surge quando o dependente interrompe o uso de uma droga. Os sintomas mais comuns são ansiedade, sensação de vazio, dificuldade de concentração, mas que podem variar de pessoa para pessoa.
Vamos estabelecer a seriedade deste jornal na medida em que publicar, ou não este questionamento e desenvolver este tema vital de forma mais eficiente em vez de se balizar por apenas uma opinião estranhamente vulgar.


Vana Comissoli

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sobre o alcoolismo e a consciência

Os alcoólatras, ou alcoólicos ou alco-olistas, inventaram nomes mais leves para eles. Para nós. Eu chamava de bêbado, embora isso doesse o suficiente para eu beber mais ainda.
Eles contavam suas histórias, às vezes não tinham coragem de encarar a real e fanta-siavam, ou talvez fossem sequelados. Há mui-tos. Demasiadas lacunas na cabeça de um adicto. As justificativas pululam.
Ouvi de uma psiquiatra: dependente dá nó em pingo d’água. Pensei nisso, vesti a carapuça com raiva de mim mesmo, a parte mais difícil da bronca toda é enxergar-se. Sempre queremos dourar um pouco a pílula, só quando não há mais possibilidades de fuga é que aterrissamos e começamos a caminhada de volta que nunca é volta, mas um olhar mais extenso.
A máscara que eu colocava no alcoo-lismo caiu.


ÁLCOOL
Material cedido pelos
proprietários do site
Anjos da Noite
a quem somos gratos.

O álcool é absorvido principalmente no intestino delgado, e em menores quantidades no estômago e no cólon.
A concentração do álcool que chega ao sangue depende de fatores como: quantidade consumida em um determinado tempo, massa corporal, metabolismo de quem bebe e quantidade de comida no estômago. Quando o álcool já está no sangue, não há comida ou bebida que interfira em seus efeitos.
O uso do álcool causa desde uma sen-sação de calor até o coma e a morte depen-dendo da concentração que o álcool atinge no sangue.
Os sintomas que se observam são:
− Doses até 99mg/dl: sensação de calor/rubor facial, prejuízo de julgamento, diminuição da inibição, coordenação reduzida e euforia;
− Doses entre 100 e 199mg/dl: aumento do prejuízo do julgamento, humor instável, di-minuição da atenção, diminuição dos reflexos e falta de coordenação motora;
− Doses entre 200 e 299mg/dl: fala arrastada, visão dupla, prejuízo de memória e da capa-cidade de concentração, diminuição de res-posta a estímulos, vômitos;
− Doses entre 300 e 399mg/dl: anestesia, lap-sos de memória, sonolência;
− Doses maiores de 400mg/dl: insuficiência respiratória, coma, morte.
Um curto período (8 a 12 horas) após a ingestão de grande quantidade de álcool pode ocorrer a "ressaca", que se caracteriza por: dor de cabeça, náusea, tremores e vômitos.
Ocorre tanto devido ao efeito direto do álcool ou outros componentes da bebida. Ou pode ser resultado de uma reação de adaptação do organismo aos efeitos do álcool.
A combinação do álcool com outras drogas (cocaína, tranqüilizantes, barbituratos, anti-histamínicos) pode levar ao aumento do efeito, e até mesmo à morte.
Os efeitos do uso prolongado são di-versos. Dentre os problemas causados direta-mente podem-se destacar doenças do fígado, coração e do sistema digestivo.
Secundariamente ao uso crônico abu-sivo, observa-se: perda de apetite, deficiências vitamínicas, impotência sexual ou irregu-laridades do ciclo menstrual.

Alcoolismo crônico:
É responsável pelas alterações morfo-lógicas em praticamente todos os órgãos e tecidos do corpo, particularmente no fígado e no estômago.
Somente as alterações gástricas que surgem imediatamente após a exposição pode ser relacionadas com os efeitos diretos do etanol sobre a vascularização da mucosa. A origem das outras alterações crônicas é menos clara.
O aumento da atividade dos radicais livres em alcoólatras crônicos também tem sido sugerido como um mecanismo de lesão.
Seja qual for a base, os alcoólatras crônicos têm sobrevida bastante encurtada, relacionada principalmente com lesão do fí-gado, estômago, cérebro e coração
Problemas clínicos do alcoolismo:
A ingestão contínua do álcool desgasta o organismo ao mesmo tempo em que altera a mente. Surgem sintomas que comprometem a disposição para trabalhar e viver com bem estar.
Alguns dos problemas mais comuns da doença são:
No estômago e intestino:
Gases: Sensação de "estufamento", nem sempre valorizada pelo médico. Pode ser causada por gastrite, doenças do fígado, do pâncreas, etc.
Azia: Muito comum em alcoolistas devido a problemas no esôfago.
Náuseas: São matinais e ás vezes está associ-ada a tremores. Pode ser considerada sinal precoce da dependência do álcool.
Dores abdominais: Muito comum a presença de lesões no pâncreas e no estômago.
Diarréias: Nas intoxicações alcoólicas agudas (porre). Este sintoma é sinal de má absorção dos alimentos.
Lesões no fígado decorrentes do abuso do álcool. Podem causar doenças como hepa-tite, cirrose, fibrose, etc.
No Sistema Cárdio Vascular: Pode ser danoso ao tecido do coração e elevar a pressão san-güínea causando palpitações, falta de ar e dor no tórax.
Glândulas:
Impotência e perda da libido: Pode haver atrofiamento dos testículos, queda de pêlos além de gincomastia (mamas crescidas).
Sangue:
O álcool torna o individuo propício às infecções, alterando o quadro de leucócitos e plaquetas, o que torna frequente as hemorra-gias.
A anemia é bastante comum o que pode ser causado por desnutrição (carência de ácido fólico).
Alcoolismo é doença (OMS):
É o que a medicina afirma, mas a mai-or dificuldade das pessoas é entender como isso funciona. Alguns acham que é falta de vergonha; outros, que é falta de força de von-tade, personalidades desajustadas, problemas sexuais, brigas familiares, etc.; outros, até, que é coisa do "capeta", outros acham que leva algum tempo para desenvolver tal "vício".
A verdade é que algumas pessoas nas-cem com o organismo predisposto a reagir de determinada maneira quando ingerem o álco-ol. Aproximadamente dez em cada cem pes-soas nascem com essa predisposição, mas só desenvolverão esta doença se entrarem em contato com o álcool.
O alcoolismo não é hereditário:
Apesar do alcoolismo não ser heredi-tário existe uma predisposição orgânica para o seu desenvolvimento, sendo, então, o alcoo-lismo transmissível de pais para os filhos. O desenvolvimento do alcoolismo envolve três características: a base genética, o meio e o indivíduo. Filhos de pais alcoólatras são gene-ticamente diferentes, porém, só desenvolverão a doença se estiverem em um meio propício e/ou características psicológicas favoráveis.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

HOMENS E MULHERES QUE AMAM DEMAIS

AOS HOMENS E MULHERES QUE AMAM DEMAIS

DEPENDÊNCIA EMOCIONAL, TIRANIA AUTO INFLIGIDA.


Quando amar significa sofrer, debater-se em criações de problemas estamos amando demais, doentiamente.
"Amar se torna demais quando nosso parceiro é inadequado, desatencioso ou inacessível e, mesmo assim, não conseguimos abandoná-lo." −Robin Norwood−
A dependência emocional se caracteriza por comportamentos submissos, falta de confiança, dificuldade em to-mar decisões, inabilidade para expressar sentimentos e por um temor extremo ao abandono, à solidão e à separação. Incapacidade de dizer NÃO, mesmo sabendo que é o momento apropriado.
È a exteriorização do medo de ficar sozinho. De não bastar-se. Melhor um mau amor que amor nenhum.
É uma tirania que constrói uma prisão interior mediante alianças com o medo, a passividade, a negação da reali-dade e os sentimentos de culpa.
Faz parte do caráter e se nutre de circunstâncias desafortunadas na infância, como todos os nossos comporta-mentos e sentimentos têm sua raiz na infância.
A dependência emocional se manifesta no comportamento afetivo, sexual, profissional e econômico.
O noivado, a lua de mel, “os casais perfeitos” ou as famílias sem problemas são idealizações que não se sustentam por muito tempo. Felizmente, em nossos dias, apesar dos excessos, da descartabilidade,estamos abandonando o amor romântico que é exigente e perfeccionista.
A discussão franca feita com assertividade, pode gerar algum incômodo, mas também traz a verdade dos sentimentos das partes. Calar ou conciliar para não se incomodar, ou por justificativas com: “não vamos estragar bons momentos” é um grande erro. Impede a solução dos problemas. No fundo há um comprometimento com o medo.
A realidade nos demonstra que as famílias mais enfermas são aparentemente perfeitas. As diferenças são tachadas desuperáveis, as discussões são pífias, ou se fala com toda educação e ponderação enquanto por baixo os conflitos rugem. Os sentimentos são secundários, a adequação é mais importante. A realidade torna-se secundária diante das aparências que preservam os laços doentios.
Nessas famílias teatrais são macerados grandes rancores e profundas frustrações.
Na família cuja a prioridade é o campo profissional e que tem dependência emocional, espera-se que forças ex-ternas realizem as mudanças. Estabelece-se a inércia e os objetivos não são alcançados.
A crença dos dependentes baseia-se que toda a mudança desestabiliza o status quo, gerando ansiedade e fragmentação. O que é assustador para os envolvidos, na verdade, repaginar os movimentos da família trará renovação e eliminação de conflitos submersos.
Homens e mulheres dependentes que baseiam suas escolhas de parceiro no socialmente aceitável, politicamente correto, desequilibram-se ao descobrir a mediocridade e a doença por trás da convivência superficial porém emaranhada e enlaçada.
As piores escolhas ocorrem quando baseadas no atrativo físico ou no poder econômico. Cedo ou tarde essas relações se convertem em algo insuportável uma vez que não envolvem sentimentos. O perigo é a tendência de “criar” sentimentos falsos, ou de plástico e crer que são verdadeiros, para isso criam-se grandes emoções também falsas.
Através do medo da liberdade e da solidão se perpetua a dependência emocional e é estabelecido o aprisiona-mento psíquico.
A angústia e/ou depressão exigem tratamento psicológico. O alívio dos sintomas é apenas o começo de um pro-cesso profundo processo de auto-conhecimento, uma vez que a recaída é implícita se não tratada.
A dependência emocional é tão nefasta, ou mais do que a drogadição e alcoolismo devido ao não aparecimento de situações vergonhosas expostas e ao desconhecimento de sua existência enquanto doença.
A PARCERIA, O COMPARTILHAMENTO SÃO DESEJÁVEIS, MAS NÃO OS DEIXEM ANULAR VOCÊ!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A COISA

Tu pensas que poderás dar um gole, um teco, uma fungada... Comprar um cinto, comer um chocolate, jogar uma vez. Matar apenas um.
Engano teu.
Neste mundo nada é feito no singular, tudo é plural, muitas vezes plural. É uma corrente de elos infinitos.
Depois do um, vem o dois, o três... Vêm todos. O primeiro é muito, os outros são poucos. Poderão se engatar pelo resto de tua vida e ela será de desespero.
Mano, isso é uma confissão. Eu senti na pele.
Tu nem te lembras mais como é estar limpo e isso te parece careta, besta, babaca.
Mano, a gente se engana, a gente se troca. A gente vira escroto a serviço, senão virar a mesa.
Estar limpo é ter a vida na mão outra vez. É poder escolher. Podes escolher voltar para a droga de forma controlada, seja lá qual for, mas escorregarás. Não tens domínio sobre ela. Ela tem domínio sobre ti.
Enganas-te também se pensas que não estás preso por que não és usuário de drogas, ou álcool, nem sequer jogas. Se não controlas tuas compras e chegas até a roubar parapossuir, se o computador é teu travesseiro, teu bom dia e tua refeição. Se comer chocolate é tão vital quanto beber água, se não dormes quando não tomas uma boleta, se te arrastas miseravelmente por um amor fodido. E dezenas de coisas mais, tu és um adicto. O bingo, os jogos da Internet, a comida sem limites que cala tua ansiedade. Se achas que podes transar com todo mundo que passar na tua frente e sentires poder ao fazê-lo. Tudo isso, mano é a mesma doença: dependência.
Quando acordares, se conseguires fazer isto, estarás atirado no chão, pano velho descartável. Coisa rota e suja. Por que estarás sujo e, talvez, vomitado, prenhe de vermes.
Os vermes te comem todos os dias, dentro de tua cabeça e fora também, na matéria que te foi dada. Os vermes podem aparecer na parede, no teu corpo e terás medo. Muito medo. Eles ficarão enormes e buscarás, desesperadamente, uma saída.
Todas as portas estarão fechadas, mano. Haverá uma aberta: a recuperação. Sair do lixo, a-bandonar a coisa que te seduz e te humilha.
Mano, sei que precisas disso como o ar que respiras porque te alivia. Te dá o esquecimento.
Esquecer o quê, mano?
Se as coisas não mudam, a menos que tu mudes teu modo de vê-las. São pesadas, bem sei. Porém, não são eternas. Eterna é a coisa que usas para fugir da realidade que não gostas de ver e, pior, de sentir. Enfeias a realidade mais do que ela é.
Depois, mano, tu não sentirás nada e nem saberás por que estás perdido de todos os caminhos e o único caminho aberto é tua alienação. Tu continuarás usando por que ela te pôs num espeto do qual não podes te safar.
A coisa, então, se mostra de verdade, em todo seu negror e seu desespero. A coisa, mano, é isso: desesperança de tudo. Saída sem saída. Beco, tortuosa viela. Desastre aéreo e sucumbível, onde não tens por onde sair. Estás preso, mano. Estás fodido.
É preciso reverter o processo.
Como fazer tal feito?
Tu foste seduzido e a sedução é a pior das armas. Nos engata, nos promete o céu. Vemos o céu. Ilusão, mano, pura ilusão. E dependência mostrará suas garras afiadas. A paixão é difícil de lar-gar, queremos de novo e de novo o que atingimos da primeira vez. Não volta, mano. Jamais voltará. A paixão dá descarga de adrenalina que precisamos porque não agüentamos o tirão da vida. Ficamos dizendo que o nosso foi além da conta a ser paga. Todos dizem, mano.
Houve covardia de encarar. Houve peso e sofrimento que não estava no nosso cardápio. A-creditamos que somos dignos da felicidade. Felicidade... Esta se conquista, mano. Não é dada de graça, precisa de olhos abertos e não da cegueira da droga, do esculhambo que escolhemos. Precisa aceitar que a vida não é justa, isso é invenção dos homens covardes, dos sem fibra para agüentar vi-ver. É história, mano. A vida é conseqüência.
Sabe, mano, o que te conto foi estudado por gente bem mais sábia do que eu. Um deles é Ar-nold Toynbee. Ele diz que quando o ser humano tem pouco desafio, ele não se projeta no mundo. Quando tem muito ele se encolhe.
Pois é, mano, é assim que a gente faz e é. Não somos diferentes do todo, mano. A gente pro-curou atalhos. Quebramos a cara.
Doeu, tu nem te lembra disso? Doeu, mano, podes crer. Doeu prá caralho! Desculpe a má pa-lavra, só ela cabe aqui.
E agora? O que fazer com essa dor, essa experiência que engata cada vez mais gente? O que fazer?
Mano, se unir, se juntar, não em torno da droga que entorpece, como fazíamos, ou como fazes ainda. Precisamos nos unir diante da coragem de ver. Precisamos fazer aquilo que achávamos que fazíamos.
Mano, não mentirei para ti. Estar de cara é pesado como o cão, mas cegos o que podemos fa-zer?
Tenha coragem, mano, vai à luta. Cura-te e vem comigo por que só quem viveu sabe como é a bronca toda.
Vem comigo. Eu preciso de ti, mano. Por nossos manos.
Amo-te.



Vana Comissoli

ADOLESCÊNCIA E AS DROGAS

ADOLESCÊNCIA E ADICÇÃO


DROGAS. Sem

Dra. Analice Gigliotti
Psic: Elizabeth Carneiro
Gisele Aleuia


Baseado em informações do livro acima mencionado. Capítulo referente à adolescência e as drogas:

Adolescer significa adquirir autonomia. Isso é fundamental para a formação de um sentimento de competência e confiança, que, por sua vez, é essencial para uma boa auto estima.
Em plena adolescência, a pessoa sente uma necessidade de viver, experimentar coisas diferentes, sentir o mundo à sua maneira, divergindo muitas vezes do que lhe foi transmitido. Os pais, de uma hora para outra, não sabem mais nada.
Novas experiências, correr riscos antes não vividos _ coisas típicas de qualquer adolescência. Nessa leva está a possibilidade do uso de drogas.
No entanto, há um corte no desenvolvimento da maturidade com a progressão da dependência. Apresenta uma personalidade imatura, dependência de fatores externos, vulnerabilidade. Os relacionamentos que consegue estabelecer são quase todos baseados no consumo de drogas.
Demonstra dificuldade de desenvolver outras formas de divertimento e de descontração. A vida passa a girar em torno da droga.
A droga escraviza o dependente e esse escraviza a família.
Os pais muitas vezes se sentem perdidos e incapacitados de lidar com aquela pessoa que conheciam tão bem e, que agora, se mostra tão diferente. A impotência é o sentimento predominante.
A adolescência traz a necessidade de mudanças no cuidado que a família oferece. Não se pode tratar um adolescente como se trata uma criança. Mas também não se pode tratá-lo como adulto. Ele vive exatamente essa fase de transição – não é uma coisa nem outra.
Ao mesmo tempo em que esse processo traz sentimentos de euforia, pode trazer grandes conflitos.
Os adolescentes já sabem fazer determinadas coisas, mas não sabem outras e têm a tendência de acharem que sabem mais do que na verdade sabem ou sequer vivenciaram.
Se algumas coisas não eram claras nem para os donos da casa, na adolescência isso será posto em xeque. O adolescente questionará tudo, principalmente o que for ambíguo ou inconsistente. Pode ser um momento muito rico para a família, traz a possibilidade de reciclagem, uma atualização.
Os conflitos não trabalhados e não enfrentados podem levar ao uso e abuso de drogas.
O adolescente que se sente amarrado ou culpado por querer respirar outros ares que não os de sua família tende ao uso de drogas como uma tentativa (torta) de separação e de individuação. Ao usar drogas e freqüentar um grupo completamente distinto do seu, é como se estivesse dizendo: “Sou diferente”.
Apesar de demonstrarem clara oposição aos pais, os adolescentes precisam de sua família. Quando se sentem inseguros, frustrados e cansados, precisam ter para onde voltar e pessoas em quem confiar.
Fatores que contribuem para o uso de drogas por adolescentes:
• Uso precoce do álcool;
• Desempenho escolar insatisfatório;
• Antecedentes de eventos estressantes ou traumatizantes;
• Relacionamento ruim com os pais;
• Baixa auto-estima;
• Ausência de normas e regras claras;
• Tolerância do meio às infrações;
• Necessidade de novas experiências e emoções;
• Baixo senso de responsabilidade;
• Pouca religiosidade.
Quanto mais cedo se desenvolve a dependência química, maior a probabilidade de ocorrerem prejuízos cognitivos e emocionais. O uso afeta diretamente a cognição − capacidade de julgamento, humor, relações inter pessoais – podendo comprometer uma adolescência regular.
O álcool e as drogas têm o poder de aumentar ou despertar um comportamento agressivo. Aos poucos o descontrole emocional passa a ser a atuação da pessoa que perde o senso crítico de perceber seu comportamento distorcido. O que ela tenta desesperadamente é manter o uso da substância que a escraviza. Perde a capacidade de questionar. Cria a ilusão de que conhece tudo e já é capaz de administrar a vida sozinho.
Libertar-se de uma droga não é uma questão de força de competência. É uma questão de “saber como” e estar adequadamente aparelhado. Isso inclui psico-terapias e muitas vezes auxílio de tratamento farmacológico.
É comum a adicção ser acompanhadas de comoborbidades que precisam ser tratadas junto com a dependência.
De longe, a droga que mais associa crises psicóticas é a maconha. Essas psicoses podem ser reversíveis com a suspensão da droga. Mas algumas podem levar meses, ou anos, podem desencadear esquizofrenia em que o indivíduo sofre de redução do pragmatismo e embotamento do afeto.
Este artigo, embora use linguagem coloquial e acessível é baseado no estudo de três profissionais especializadas em adicção. Têm elas muita vivência e pesquisa de evidências científicas. Nada do que partilham é “achômetro”. É aquilo que a comunidade científica mundial acredita e comprova.
Se você já se deu conta que sua vida está complicada ou estacionada pelo uso de drogas, procure ajuda antes que ela coma você.
Se tem dúvidas sobre o grau de seu uso, procure ajuda.
Se nega sua dependência, procure ajuda.
Não espere ficar difícil demais.