
sábado, 12 de janeiro de 2008
GRATIDÃO

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
OS DOZE PASSOS
Admitimos que somos impotentes perante a dependência; que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
Acreditamos que um Poder Superior a nós mesmos pode devolver-nos o equilíbrio.
Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus na forma em que O concebemos.
Fazemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
Admitimos perante Deus, nós mesmos e perante outros seres humanos a natureza exata de nossas faltas.
Prontificamo-nos, inteiramente, a deixar que Deus remova todos esses defeitos de caráter.
Humildemente rogamos a Deus que nos livre de nossas imperfeições.
Fazemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e dispusemo-nos a reparar os danos a elas causados.
Fizemos reparação diante dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo signifique prejudicá-los ou a outrem.
Continuamos fazendo o inventário e, quando estamos errados, nós o admitimos prontamente.
Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato com Deus, na forma que O concebemos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizá-lo.
Tendo experimentado um despertar espiritual graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos dependentes e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.
* Os Doze Passos dos AA, criados em 1935 por dois alcóolatras, Dr. Bob e Bill, foram um marco no tratamento de dependências. Reconhecido por médicos, terapeutas e todos aqueles ligados à área de tratamento da doença, como caminho fundamental e basilar para a Recuperação.
Ao serem detectados muitos outros tipos de dependência, ou seja, outros polarizadores como: jogo, drogas, sexo, comida, compras, gastos, presentes, cigarros, etc... os Doze Passos, adaptados apenas no objeto da adicção, foram assimilados pelos grupos de auto-ajuda específicos. Foram já detectados 121 tipos de dependência com grupos de auto-ajuda atuando no mundo todo.
Ainda hoje, em pleno sec XXI, a compulsão dependente é considerada como vício, erro, teimosia e outros epítetos inveros.
DEPENDÊNCIA É DOENÇA!
O FUNDO DO FUNDO
Maristela mudou de lado, juntou o travesseiro ao corpo e. Gemeu.
Maldita, maldita, mil vezes maldita. Denunciou-se.
Levantou, fez como aprendera ao longo das derrocadas e bebeu muita água. A ânsia de vômito subiu. Debruçou-se sobre a privada e regurgitou o gim da noite anterior. Permitiu que se esparramasse sobre seu corpo nu. Respirou e todas as blasfêmias emergiram. A morte foi uma sombra que passou devagar, como uma prece muda.
- Tentei, não consigo, e não lembro mais do início. Talvez tenha sido após a partida de Fernando, talvez antes. Parece que ele me falou sobre não agüentar mais, eu não tinha mesmo jeito. Sei que tentei parar, embora tenha me sentido cada vez pior. A lucidez me sufoca. Eu só quero fugir, mais nada. Será pedir muito?
Ao levantar ainda conseguiu lembrar de tomar banho, depois tudo se transformou numa névoa disforme, um anonimato cavoucado na inconsciência.
Desde quando? Quando os dias se transformaram numa sucessão de copos, de quedas, de desespero?
Não lembrava e não queria tecer parâmetros com o que fora. Porque um dia fora uma pessoa. Borrara a imagem para não sofrer demais, ainda tinha estes tortos vestígios humanos.
Tropeçou nos pés e agarrou-se à toalha pendurada que escorregou e levou-a junto num embrulho espatifado no chão. As mãos tremiam incontroláveis. Estas filhas da puta criam vida própria a cada manhã, não suporto isso. Cambaleou até perto da cama aonde acharia a garrafa que a levaria, por instantes, ao mundo estacionado. Bebeu um gole farto, respirou fundo, como sempre parecia renascer. Por momentos permaneceria viva neste limbo que a redimia, que a condenava também.
Vestiu-se e resolveu comer. Para que comer se está empanturrada de açúcar alcoólico? Bebeu mais, as mãos se equilibravam com firmeza agora. Podia pentear-se, escolher uma roupa, fazer de conta que não se via ao espelho. Não se espelhar.
Aposentou-se por invalidez, disseram que tinha uma patologia mental qualquer. Ri desta lembrança, sabe bem qual é sua doença. Estava sempre à mercê do barranco e novamente dispô-se a observar o horizonte longínquo que avistava do mirante precário.
Balança, balança, cabeça, no infinito. O peito é um esparramo de certezas tortas, a solidão escorrendo pelos braços e convidando ao sono ininterrupto. A solidão tem gosto de fel e nada pode preenchê-la. A solidão ninguém explica, só vivendo... A solidão...
O gosto da bebida descendo como um bálsamo fervente fez a ribanceira aumentar. Jogou o corpo para frente balançando, a voz esganiçada preencheu os espaços num arremedo de melodia. “Eu quero a esperança de óculos e um filho de cuca legal! Vou colher com as mãos a pimenta e o saaaall”. Balançou cada vez mais inclinada sobre o vazio aberto à frente. As paredes sumiram e o cheiro da terra úmida tornou o momento mais real.
Quando começou a perder a sensação de estar a cavalo do mundo bebeu um gordo gole. Precisava balançar-se pendurada no penhasco sobre o verde do vale. Que alegria estar sozinha, adeus Fernando, bem sabes que esta vida não vale a pena.
A música voltou a espatifar a garganta. “Meu mundo caiu”. Risos descontrolados. Caiu, meu mundo caiu de cima do barranco, quebrei a cara, não sou normal. Gostava de acreditar nas coisas e achar que a felicidade era um bonde chamado desejo.
- Vou balançar e balançar até sair voando. Eu posso voar como passarinho, não é todo mundo que consegue. Eu consigo. Vou driblar a bobões, tem um monte deles. Agora não tem mais, só tem o barranco crescendo virando ribanceira, penhasco profundo. Só tem eu.
Começou a falar engrolado, tropeçando nas palavras e o corpo tornou-se um pêndulo na anarquia do quarto. Preciso de mais bebida, mais e mais. Me sentirei ótima depois. Não controlou os movimentos, mas soube ir até a cozinha e abrir uma nova garrafa. Os olhos estavam quase fechados. Por momentos sentou no chão, mas não se rendeu, logo levantou e seguiu numa dança esdrúxula de volta ao quarto.
- Esqueci, preciso comer. Já sei, vou para rua, caminhar por aí. - Riu como quem está contando uma grande piada.
- Ninguém me achará e poderei beber e beber sem os chatos. Idiota, és uma idiota, não tem mais ninguém, ninguenzinho para incomodar. É mesmo, só tem eu a me controlar. Não preciso me controlar, sou incontrolável.
O telefone toca repetidas vezes.
- Ó, o perturbador. Não atendo, não quero saber de nada. Quero a liberdade que mora comigo. O que eu ia fazer? Esqueci, ah, ah, esqueci. Eu esqueço tudo. Maravilhosa liberdade.
O telefone cansa, talvez tenha sido a última tentativa e alguém do outro lado esteja lamentando a triste sina. Tira o fone do gancho e manda todos e tudo à puta que o pariu, em seguida ri histericamente.
Vamos voltar a voar e corre pelo quarto com um lençol às costas que imita asas fracassadas.
Atira-se na cama e um cinza límbico toma conta de tudo. Frestas e depois rombos, são feitos na névoa. Centopéias caminham lentamente, os olhos brilham e escárnio enfeita seus risos. Um tremor toma conta de Margot ao pensar naquelas pernas sincopadas caminhando sobre ela, mas os bichos sinuosos dirigem-se à garrafa e enfiam-se gargalo a dentro.
Aparecem répteis, insetos nojentos, crocodilianos, riem e riem e bebem sem nenhuma compostura. Margot reage, pega um pau e bate indiscriminadamente. Precisa salvar seu néctar, sua preciosa válvula de escape. Agarra as centopéias, morde suas cabeças até que um suco pegajoso e branco escorra em seus dentes. Estão todos mortos.
Atira-se na cama, aliviada, perdeu o medo dessas coisas que habitam sua casa e aparecem sempre que se dispõe a sossegar. Por isso não pode parar de beber, sóbria não conseguiria enfrentá-los. Ninguém entende. Fernando achava que tinha alucinações etílicas.
-Mentira, não é alucinação, não posso convencê-los, os monstros aparecem quando estou só. Quando ninguém pode vê-los, são dissimulados. Os bichos levaram embora minha embriaguez, como sempre.
O raciocínio a salva e leva-a à cozinha. Come com as mãos o resto de pão dormido lambuzado de patê que ontem não coube no estômago. Mexe ovos numa frigideira engordurada, já várias vezes servida. Comer é uma tortura e um alívio, devolve certa sanidade e, ao mesmo tempo, roubam o esquecimento.
Diante da TV é o lugar ideal para se tomar um copo de gim onde põe água da torneira, está resolvida a não se embriagar novamente. É só para as mãos não voltarem a tremer e para não sentir a terrível dor na nuca. Vá lá que tenha um câncer nos gânglios, melhor não saber.
-Se eles operam, a gente “se” morre mais ligeiro, eu sei. Sei lá, essa dor...
Só outro copo para não perder o efeito. Acabou, merda. Tem álcool no banheiro, bebida por bebida é a mesma coisa e dá o plá mais rápido. Enche meio copo de álcool e completa com água, toma de gute-gute, não sente o calor no esôfago.
Sabe que não pode mais levantar, encosta a cabeça no sofá e fecha os olhos, ao reabri-los a sala está imersa na névoa densa e cinzenta. Os bichos nojentos voltaram.
Desta vez são mais ferozes, cobras, aranhas, lacraias. Precisa matá-los mais uma vez. Ah, se Fernando estivesse aqui para ajudá-la. Por que me deixaste neste zoológico de horror? Despedaça uma cadeira na cabeça de um animal pré-histórico que se escondia no canto do balcão. Um furor assassino toma conta dela e grita esmigalhando crânios e dorsos, a sala é uma sangueira esverdeada e fétida. Dorme.
Acordar, um desperdício de energia, suspira. Veste-se e sai. O supermercado é perto, compra comida congelada e algumas garrafas.
O dia acabou, foi um dia estafante. Dá trabalho lidar com a imundície do mundo. Não bebe até à uma da manhã quando o silêncio envolve a rua, as casas e as pessoas.
- Estão todos mortos outra vez, por que precisam morrer todos os dias? Deixam-me aqui, sozinha e desperta a velar por suas almas bandidas, a recolher seus monstros esmagadores de inveja e luxúria. Até teus monstros eu recebo Fernando, com teu pau sempre pronto a me violentar, seu desgraçado. Amargo amor. Amarga vida.
O telefone toca rasgando a noite, resolve atender e despachar para sempre esta presença intrometida e fuxiquenta.
“Alô! Quem é o estrupício?”
“Margot, é o Fernando, estás bebendo?”
“Porco chauvinista, bebendo está tua mãe. Eu sou lá mulher de beber?”
Derruba o aparelho no chão, nem cogita resgatar. Enche o copo e volta à ciranda do armazenamento da vida num saco bem fechado.
No dia seguinte, logo cedo, Fernando abre a porta do apartamento. Margot está dormindo no chão enrolada num cobertor, está toda urinada. Ele a pega e a leva para uma clínica sem que acorde uma única vez. Quando abre os olhos está amarrada a uma cama com um enfermeiro que imediatamente lhe aplica uma injeção. A lucidez breve dói como facada. Não tempo de gritar, cai num sono sem sonhos onde lentamente o cinza é rasgado por uma nesga de brilho.
Fernando cuida de tudo, contrata uma faxineira para organizar e limpar os estragos do apartamento. A mulher fica horrorizada com a quantidade de insetos esmagados e espalhados pelos cantos e embaixo dos móveis.
Margot está quieta, de novo em casa, um cheiro de alfazema invadiu o ambiente. Faz dois meses que não bebe, Fernando liga todos os dias e até já foram ao cinema. As janelas estão abertas e uma brisa outonal brinca na samambaia nova que esverdeia a sala.
Um ruído baixo, um ciciar começa a ser ouvido, em seguida antenas tremelicantes aparecem sob o balcão. Logo muitas outras a acompanham e movimentos miúdos se seguem.
Margot ainda não viu nada, mas todos seus sentidos se põem alertas, um medo terrível toma conta dela e sabe que não está mais sozinha.
No banheiro a faxineira esqueceu a garrafa de álcool.
Vana Comissoli
O CARNEIRO
Nasci e vivi na cidade, sou bicho do asfalto. Só o conhecia através de livros. Ele estava lá. Calmo, ruminante. Olhar lasso, de pálpebras caídas.
Era um carneiro, podia ser ovelha, mas era da família. Tenho certeza. Aquela lã enrodilhada... Era sim.
Fiquei estática por vários minutos olhando aquele quadrúpede a poucos metros de minha janela remoendo e olhando fixamente nos meus olhos.
Eu fumava um cigarro e olhava para ele.
Eu estava lá.
Ele também.
Os carros e os transeuntes pareciam não percebê-lo. Dava uma estranha sensação de fantasma, embora eu não acreditasse nisso. Eu nunca vira aquele canteiro gramado na frente de meu prédio. Não sabia se grama, ou mato, seja lá o que fosse, nascia de um dia para o outro, talvez sim.
Aquela coisa coberta de lã de tom indefinido pela chuva e sol não podia ser associada, de forma alguma, à blusa macia que me vestia. Roxa, quente, com desenhos geométricos. Não havia nada no casaco pardacento do carneiro, nem um traço sequer, nenhuma marca. Na blusa havia e em mim. As minhas eram caóticas e se entrecruzavam, saltavam através de minhas veias e latejavam no pescoço, me estrangulando nas noites onde os carneiros não existiam mais.
Lembrei-me das noites de insônia na infância onde, sem outros artifícios, eu contava carneirinhos para dormir. Depois virei a ovelha negra da família, eu não ligava. As famílias gostam desses delicados apelidos quando não nos submetemos. Eu não me submetia à hipocrisia dos domingos passados em torno da TV que berrava a mais pura idiotice que o ser humano é capaz de criar. Muito menos a um pai bêbado e incapaz e uma mãe que se vangloriava de carregar a turma que parira nas costas.
Havia também uma coisa indefinida e constante, uma espécie de guerra oculta entre eu e o mundo. Vagamente sabia que a guerra era eu. O mundo merecia essa luta pelas barbaridades desconexas que cometia todos os dias em favor de um sistema corrosivo.
Essas coisas todas, tinha certeza, o carneiro também sabia e pastava no meio dos edifícios numa forma de imolada rebeldia. Se um carro passasse sobre ele espalhando tripas e lã, não se incomodaria, sempre são necessários os mártires para chocar. O carneiro chocava.
Ele destruía as ervas daninhas enquanto meus olhos soltavam chispas de ódio e agressão. Eu fuzilo. Isso sou eu e nem me conheço bem. De alguma forma o animal via o que eu não via, a coisa que eu era. Ele olhava justamente para essa coisa. Fui dominada por um misto de sensações entre nojo, surpresa e vergonha. Como se fosse surpreendida sem roupa.
O bicho, carneiro ou ovelha, sabia que ovelha negra é uma invenção dos nossos pais como o bicho papão. Sei que me achava uma grandessíssima humana idiota. Eu ma achava uma grandessíssima idiota humana? Não, jamais pensaria isso de mim. Eu chocava e assim mostrava ao mundo que conhecia sua desfaçatez. Lembrei do Pequeno Príncipe e do carneiro que ele amava, nem grande demais, nem pequeno demais, nem muito velho e nem muito fraco: um carneiro perfeito e doce. Esse que me visitava não tinha essas características, era grande, de cara agressiva, mesmo com aqueles olhos de ressaca, acho até que por isso mesmo. Podia ver em suas olheiras a noite que passara tomando chá de cogumelos alucinógenos e descobrira verdades absolutas dentro de uma garrafa mágica de vdka. Lugares que eu conhecia bem e que me levaram a ser quem sou: uma representante direta dos guardiões da liberdade. Pelas minhas convicções e princípios inquestionáveis, não me submeteria à carneirada humana hipócrita, apática. Não, eu lutaria acordada pela fonte inesgotável de cocaína, atravessaria os dias desperta e ativa. Eu sabia.
O carneiro, me fitando, era um dos meus e me fazia companhia, mas era desconfortável. Aquele irracional sabia tudo melhor do que eu.
Fechei a janela, dane-se o carneiro, possivelmente ficará lá o resto de sua vidinha imbecil, qualquer dia desses, será comido com apetite e sua pele fofinha virará suéter e cachecol.
Preparo minha carreira e me deixo possuir pela certeza de que sou superior aos animais de quatro patas e desdenho a sua pobre vida inútil de observador.
Fito meu auto-retrato preso à parede por um prego um pouco grande demais. O olhar vago e lasso, fortemente margeado por cajal é hipnótico e o talo de grama na boca dá um toque campestre e ovino deliciosamente chocante.
Vana Comissoli
O AVESTRUZ VOADOR
Rápido, rápido, rápido... Eu pensava apenas nisso: ver o fundo do prato, a comida descendo aos borbotões goela abaixo. A "boca". Era tudo que eu queria. Meu pai cria avestruz, os cercados ficam nas laterais da pequena estrada que vai de nossa casa até a porteira. Os animais passeiam com elegante displicência. Não entendo como tendo pernas tão ridículas para o corpo arredondado, empoleirado sobre elas, possam ter aquele elástico e elegante. Gosto de vê-las e, para equilibrar o efeito do "teco", sento-me à sombra do capão de árvores antigas que me esconde, para fumar um ou dois baseados no sossego da meia tarde. Nesta hora de pós-almoço eu não vejo nada, uma fixação: a "boca" que me entrega a musa branca. A Afrodite de minha loucura. Já tenho uma antevisão do efeito eufórico que me dá pique para catar merda de avestruz ou encher seus cochos de ração. Apresso o andar quase transformado em corrida, quero os braços da minha deusa. A compra é rápida, uma mão escorregando para dentro de outra e, nessa dança, um entrega e o outro paga. Um único golpe. Volto com o papelote ardendo no bolso, já vivendo o momento seguinte, nunca mais o agora que me sufoca. Tudo que anseio é a porta fechada que doa a liberdade de cheirar a cocaína. Um zapt e encosto-me por três minutos esperando a força com a qual a fada branca me sacia. O que me fere logo estará esquecido e serei forte e capaz, muito capaz outra vez. Sentimentos e possibilidades que sem ela não atingirei. Há tempos que a malemolência da maconha deixou de bastar. No princípio era bom: eu esquecia, ficava boiando no mundo. Logo achei chato ser inerte e dei a primeira fungada. Encontrei-me ativo, entusiasmado. Aos poucos se tornou uma necessidade diária e logo, horária. Eu preciso de força para enfrentar o fora de mim que me apavora. Paralisa. A branca me faz correr pelo curral de avestruzes. É hilário ver os animalões correndo, batendo as asas sem poder voar. Os peões gritam inocentes do que me faz bancar o palhaço durante tanto tempo: - Ô, Genaro, corres mais que avestruz macho! - Bate as asas, cara, bate as asas! Eu bato os braços e os bato, os cotovelos se chocando com as costelas. É gozado demais e rio até me estatelar no chão, a cara enfiada no esterco fedorento. Os avestruzes fazem a corte dançando em torno da fêmea, arrepiam as penas, a cabeça, imbecil, a ondular sinuosa como uma cobra, com o balanço do pescoço comprido. Chego a ouvir o barulho como uma engrenagem azeitada: uom! Uom! Uom... Tenho que voltar para casa, sempre volto, pelo menos de vez em quando. Ou finjo, ou fujo. Da polícia, do trafica que me cobra, do cara que quer a minha pele. Eu sou "ligado", sei das coisas, a "maresia", cheirinho bom da maconha, me mostra tudo. Então é hora de me meter num canto sossegado, fumar um baseado e acalmar a virgem dentro do meu sangue, explodindo minha cabeça. Preciso chegar em casa calminho... calminho... Estava eu, no meu capão preferido. Tinha uma erva das boas, era conhecedor e o trafica sabe que não me enrola como os boyzinhos recém chegados na coisa. Batizada, vejo de longe. Um dia especial, céu danado de azul, caprichei na charola, um tamanho monumental. Os avestruzes passeando sua burrice. Nem tanto, veio um macho esperto e eu fumando, na boa. O desgraçado se plantou na minha frente, a fumaça subindo, só de sarro comecei a fumegar na cara dele. O maluco foi ficando chapado, o pescoço começou a ondular igual quando quer foder a fêmea: uom! Uom! Uom... A cabeça: zóim... zóim... De repente dobrou as pernas e se mocosou no chão, bem ajojado, a cabeça ainda ondulando balé. O grito de meu pai nos ouvidos: - Genaro! De novo nesta droga dos infernos? Dei um pulo, ainda não tinha perdido todo o respeito e principalmente o medo. O fumo não tira o medo, aumenta. Foi quando meu pai viu o avestruz arrepiado, atiradão: zóim... zóim... - O meu avestruz! Olha o que fizeste com meu avestruz!Cacilda! Olha o que o desgraçado do teu filho fez com o meu avestruz! Caiu minha ficha: para meu pai eu já era muito menos do que um avestruz viajando.
Vana Comissoli
ORAÇÃO DA SERENIDADE
Senhor, dai-me:
Serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar;
Coragem para modificar as que posso e
Sabedoria para distinguir umas das outras.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
IMAGEM RETORCIDA
A aragem discreta faz balançar suavemente a saia das moças, o movimento me seduz. Seduzir é um ato mágico que me leva às alturas de meu ego preenchido. Adoro ver as jovens exibir tranquilamente sua volátil sensualidade para mim.
Enfim, tudo me empurra ao parque de diversões nesse domingo. Lá estou eu, menos preocupado com a roda-gigante, o trem fantasma e essas emoções fortes que as pessoas gostam de enfrentar. Falta-me a companhia deliciosa de uma musa, logo encontrarei, sou um homem bonito, um pouco tímido. Dizem que não, que sou extrovertido e falante, só eu sei o quanto me custa.
Um pouco de coragem me faz falta e, para consertar o pequeno erro de minha personalidade, antes de ir à caça, paro no borbulhante bar logo na entrada e peço uma gelada. A cerveja desce redonda pela garganta. Tomo outra, está no ponto. Saio carregando uma latinha para gelar minhas mãos, devido ao calor, suam um pouco.
Tenho uma raiva danada desse suor que nem sempre é adequado ou comedido, uma cerveja resolverá. São três horas da tarde e saí do almoço familiar onde faz parte do ritual domingueiro a galinha assada com macarrão de molho espesso, regado com um vinho não muito chique, porém de cor maravilhosa. De uns tempos para cá tenho abusado um pouco, só um pouco. Afinal é domingo e todos entendem minha necessidade de relaxar, espairecer, meu cérebro rala toda a semana na batalha do pão. Ultimamente tenho faltado alguma segunda-feira, acordo cansado, meio mareado. Será que tenho me divertido além da conta? Talvez me excedido na cerveja? Bobagem! Bebo apenas nos finais-de-semana. Minha mãe é que se preocupa demais comigo, até parece que sou menino. Mãe é sempre assim, não percebem o tempo, somos para sempre crianças.
Em seguida encontro a escolhida para curtir aquela festa da natureza junto comigo, nem que para isso eu venha a enfrentar a xícara maluca, ou o boboca do carro-choque. As meninas adoram dar gritinhos nesses brinquedos que servem muito bem para abraçá-las tirando o medo ou o frio na barriga. O único que me recuso terminantemente de subir é a montanha-russa, trauma, eu acho. Só em pensar me dá enjôo. Tentei uma vez e a cerveja se derramou de minha boca direto para o colo da Angélica, ou Magda, ou sei lá como era o nome da gata perdida pelo vômito abusado.
- Oi, gatinha, está sem par? Que pecado!
Minha cantada sempre me parece idiota, eu tinha que ser mais criativo, nunca me esforço muito porque funciona mesmo assim. Essas meninas são umas bobas, servem mesmo é para comer cachorro quente, tomar cerveja e dar o corpo para a gente. Isso não perdôo, o gasto no parque precisa de retorno, elas compreendem e dão. Uma ou outra precisa de uns corretivos, é raro, só se eu estiver muito “mamado”. Aí, vai na marra. Elas gemem, fazem onda, sei que gostam, é bem interessante quando acontece, pena nunca lembrar muito bem.
Chamo-as de gatinha, nem tanto por elogio, mas porque elas miam de verdade quando dizem aquele oiiiiii, revirando os olhos e empinando mais um pouco os seios. Gostaria de rir do miado, acho que elas se sentiriam ofendidas, não que me importe com isso, apenas não fica bem logo de cara sair esculhambando.
Começamos a passear e a conversinha besta rolando. Essa será fácil, já percebi, se fosse ao contrário me desfaria dela rapidinho. Ofereço uma cerveja, a garota prefere coca, lá por dentro eu rio – até que cairia bem uma branca agora, é cedo ainda. Não vem com sermão, não fico cheirando por aí, feito um maluco, só de vez em quando para dar um plus, um colorido. Pego leve, me preocupo com minha saúde. Cerveja não faz mal, tem levedo e outras coisas bem legais para o organismo.
Vejo a musa descer o tobogã gritando. Uma delícia, quando descer fingirá medo e se apoiará no meu peito, então darei um aperto leve e me encostarei o corpo todo nela, para sentir a temperatura.
Sabia que essa era mole, a garota se pendura no meu pescoço e posso atritar meu sexo que, logo se prontifica, no dela. A noitada será quente e me entusiasmo.
- Outra cerva, gatinha?
Agora concorda e pela rapidez com que esvazia a lata sei bem que é das minhas.
- Está esquentando, né?
- O verão está chegando. Vamos já dar uma esfriada, vamos sentar e fazer uma rodada, beber em pé é muito chato.
Sentamos e papo vai, papo vem. Só asneiras. Essas gurias não têm nada na cabeça, futilidades, reclamações e televisão. Quando falam em televisão até parece que estão falando de Bergmann, ou Antonioni. Puf, tudo ar, só ar. Não me incomodo, meu objetivo é bem outro.
Peço a cerveja em garrafa, é mais barato e rende mais. Não devo passar de seis e convido para caminhar quando atingimos minha meta equilibrada.
Sinto a conversa deslanchar melhor, a Gracinha fala pelos cotovelos e ri, pára de vez em quando bem na minha frente e conta outra babaquice, jura que está sendo esperta e me agradando muito. Eu só olho para os peitões, são redondos e escapam metade para fora da blusa decotada. Se é que se pode chamar de blusa aquela tira de pano que mostra umbigo e o início das costelas, para acabar na metade dos seios. A calça é bem baixa, fico pensando nos pentelhos logo ali, nem precisa enfiar a mão toda.
Procuro com os olhos um canto discreto para dar uma bolinada. Gracinha faz beicinho na minha frente. A vagabunda deve estar louca para dar uma. Sou entendido.
- Mas está mesmo quente, não é meu amorzinho? Vamos gelar a goela de novo. – Ela concorda com a cabeça. Se eu entorto essa doida, brinco do jeito que me der na telha. Antecipo o prazer e penso em levá-la para meu quarto, lá a gente fica mais à vontade.
- Moro aqui pertinho, vamos ficar mais na paz, tomar uma cervejinha...
- Eu topo, mas quero ir na Casa dos Espelhos.
- O que é isso? Ah, pára com isso. Vamos logo.
- Quero, sempre quis e nunca fui. Me leva.
Biquinho de mulher é foda de resistir. Passo no bar pego quatro latas, duas para cada, de outro jeito não agüento e é certo que terei que entrar junto.
A fila da bilheteria está grande, odeio esperar.
- Fica aqui, belezura, vou buscar outras.
Ela nem reclama, bebe lascado, essa diabinha. Dei sorte hoje, já estou quase me apaixonando. Até que não era mal ter uma gata fixa. Fantasio enquanto pago e volto. A menina é toda sorrisos e decido apostar nela. Gosto do cabelo oxigenado, dá um charme. A sandália altíssima finge pernas longas e me imagino enfiado no meio delas. Deu liga mesmo. A gata é de se segurar.
Afinal compro os bilhetes e vamos para a fila de entrada. Do lado de fora se ouve as risadas do pessoal que se diverte lá dentro. Não tenho a menor idéia do que são esses tais espelhos, mas resolvo me divertir também. Não há de ser tão idiota como penso, preciso perder minhas implicâncias, sou implicante além da conta. Isso é um problema, arranjo muita encrenca e muita briga por causa dessa mania.
- Ó, guarda o lugar que vou correndo pegar as duas últimas, depois a gente se diverte às pampas, no meu ap.
- Ta limpo, amor!
A filha da puta faz um olhar de estourar coração e zíper das calças. Passa a língua nos lábios e já estou a fim de esquecer os espelhos e partir logo para os finalmente. Calma, digo para mim mesmo, muita calma nessa hora. A menina quer se olhar, deixa se olhar, é rapidinho.
Tenho que correr, é meio difícil porque exagerei um pouco e as pernas resolvem dançar um sapateado grotesco, mas controlo a jogada. Não estou bêbado, só alegre. Um domingo desses, com tudo em cima, quem não ficaria?
Quando volto, já quase a nossa vez de entrar. Abraço a Gracinha e descanso a mão no peito dela. É macio e grande, nem sei se cabe inteiro na minha boca. Acho que não. Melhor ainda.
Concluo que não é elegante beber lá dentro e emborco a lata de vez.
A sala é meio escura. Tem um monte de espelho, altos e largos. Bem mais altos do que eu. As pessoas param na frente deles e rolam de rir. Tenho que fazer a mesma coisa, a menina já está fazendo. Seu riso parece cacarejo de galinha, mas tudo bem, eu quero são os gritos.
Olho meu reflexo e um arrepio pavoroso me percorre, estou todo torcido, os espelhos, não sei como, saem de suas molduras e me cercam. Imagens minhas por todos os lados, disformes. Altas, magras, barrigudas, anãs. O suor banha meu corpo e tento me desvencilhar dos espelhos. Eles fecham o cerco e minha boca refletida é uma caverna escura e fria.
Meus braços aparecem tocando os pés sem se esticarem. Grito. Os espelhos gritam terror e medo, eles gritam. A lata de cerveja em minha mão toma proporções gigantescas e entro para dentro dela na imagem seguinte. Sinto-me engolir e sumir pelo bocal.
Agora estamos eu e os espelhos dentro da cerveja que ri alto e veste uma calça de cintura muito baixa e uns peitões que esfrega na minha cara e me sufoca. Ouço a voz de minha mãe, mas não consigo vê-la: Toninho, meu filho, cuidado. Cuidado! Eu quero compreender melhor o do que me avisa, mas as paredes de alumínio me apertam e me debato para que não me tirem os movimentos.
O abraço daninho não pára e os espelhos já estão lá dentro também e seus risos de escárnio ferem meus ouvidos. Fecho os olhos, eles jogam as imagens para dentro de mim e vejo as pernas tortas, a cara comprida, os olhos roxos. Tenho um corte na cabeça e meus miolos estão fugindo. Preciso segurá-los, escorregam pelos meus dedos que são curtos e grossos.
Minha garganta se fecha, não consigo emitir nenhum som, no entanto ouço meus berros saindo não sei de onde. Acho que pelos ouvidos. Tento tapá-los, as orelhas crescem, pareço um gnomo de cabeça imensa. Debato-me. As paredes apertam e prendem meus braços num torniquete.
Alguns homens, de braços imensos começam a me prender os movimentos, ouço suas vozes calmas me pedindo serenidade e não sei mais o que isso significa. Uma seringa enorme aparece na mão de um deles e sinto uma picada, em seguida um líquido ardido me penetra. Fogo da minha alma entrando em mim.
Estou deitado agora e os espelhos refletem um homem magro, prematuramente envelhecido, olhar desvairado, espuma de vômito saindo pela boca e me nego a reconhecê-lo. Não sou eu. Não sou.
Alguém me carrega e vejo os corpos nos espelhos que não somem. O sono me libertará e procuro um copo qualquer, não há copos nem garrafas aqui. Só espelhos bruxos que abrem a porta da loucura.
Escuro.
Vana Comissoli
ANGOLA DE PORRE
- Pro chão! Pro chão!
Os homens entraram na vila batendo e esfaqueando como se os moradores fossem cães raivosos. Alguns tiros dado a esmo, visando os velhos e as crianças, mesmo os que já não tinham mais pernas ou braços. Podiam acertar os jovens, ou mulheres. Nada importava, cobrir a terra de sangue marcando sua passagem era o objetivo: o inimigo os temeria e o povo respeitaria.
Mudavam de uniforme de acordo com suas conquistas de território, não conseguiam mais reconhecer de que lado estavam, isso também deixara de ter significado. Eram todos iguais depois de quase trinta anos de guerra civil, Angola, a N’gola de seus avós estava estraçalhada pelo horror e o caos.
Quando ouviu os gritos dos oficiais elevados a este posto de acordo com sua coragem, descalabros ou euforia do último porre de seus superiores, correu como sempre fazia, acostumado aos esconderijos e aos lugares escuros que lhe preservaria a vida miserável. O único cuidado era reunir a família para irem juntos.
Desta vez não deu tempo. O soldado desceu uma coronhada em seu ouvido e a escuta se acabou. Depois foi levado aos arrastos para dentro de sua casa, amarrado a uma cadeira em meio a socos e pontapés: queriam que ficasse ereto, em bela postura para assistir ao show e regozijar-se.
Sua mãe foi a primeira. Eram gentis, primeiro as damas. Dois tiros nas pernas para que se ajoelhasse pedindo perdão por não ter recebido a patrulha com flores. O de misericórdia foi rápido.
As lágrimas misturadas com o sangue da testa de Tomás correram em espantado horror. A seqüência não foi muito diferente: a irmã, a cunhada grávida, o irmão, os três sobrinhos e por fim o pai. O chão de terra banhou-se, melado de doce sangue.
Foram embora após carnearem os porcos e as cabras que baliam premonitórias.
Caminha em desalinho, a tosse roendo o peito cavo, de vez em quando cospe raias de sangue. Junto um pouco de vômito arrancado pelo esforço, traz o azedo sabor da aguardente que faz parte de sua vida desde que o pesadelo real aconteceu.
Hoje está especialmente fraco e um suor gelado cobre seu corpo sem trégua. Cai e deixa-se ficar. Viver é uma armadilha insuportável. A guerra acabou, a luta não. Fecha os olhos e geme pela morte que não lhe deram. Supremo castigo infligido.
Mário vê o homem caído e toca sua jugular em busca de algum batimento. Eles estão ali. Atravessa-o no selim da bicicleta e pedala até o hospital, quem sabe consegue que o recebam uma vez que a febre está altíssima e o coitado delira:
- Mãe, pai... não... não... Me matem, me matem...
Alguns meses se passam entre comprimidos, injeções, descanso nos lençóis encardidos, comida insossa obrigando-o a resistir. Entrou calado, calado saiu. A tuberculose foi estancada, a ferida da alma não tem jeito, é como chaga que não se fecha e nem silencia.
Agüenta um dia, dois, nem sabe se alcançou o terceiro e entra no armazém da esquina, conta as parcas moedas que sobraram no bolso e pede a cachaça que o animará. Amanhã fará um ou outro biscate em troca de um prato de comida que mal tocará e outras moedas que lhe possibilitarão o sono dos mortos: repentino, sem sonhos, sem os pesadelos que o assombram na clareza das idéias.
Nem chega à enxerga que chama de cama, cai ao pé dela. Qualquer coisa ou lugar é igual desde que se apague, desligue a maldita lembrança.
Dias, meses, anos? Que importa? Só sabe que segue empurrado pelo coração que ainda bate.
Os vivos foram feitos para viver, seja lá qual for o destino ou dor que tenham que carregar. Essa é a lei que poucos compreendem muito menos os que estão dilacerados. Angola está inteiramente mutilada, se apóia em milhões de muletas que arrastam seus filhos estraçalhados pelas minas, tiros ou esfaqueados. Os cemitérios fedem cadáveres meio sepultados.
Rolando pelas ruas, vielas, campos, cada dia em um lugar, cada dia vê lágrimas nos rostos cansados, onde a esperança não tem vez. As guerras, mais tribais do que libertárias, não cessam apesar do governo legalizado.
Tomás, aos poucos, começa a enxergar que não está sozinho bebendo desse cálice de fel. Os acampamentos dos que ainda fogem precisam de gente que possam ajudar a carregar a cruz: cozinheiros, pedreiros, toda e qualquer mão-de-obra.
Olha as mãos que tremem todas as manhãs, o engulho do estômago massacrado e se incrimina quando não consegue levantar do chão a criança que vage por alimento, sem teto, sem mãe, sem nada. A única chance guardada nas mãos dele.
Angola não pode perder tempo com os bêbados, drogados, víceras expostas da sociedade que começa. Não há clínicas, hospitais, psiquiatras que os queiram. Têm feridos demais para tratar e investimento para fazer nos jovens que construirão a pátria.
Tomás fecha-se num quarto, amarra-se ao pé da cama e começa sua desintoxicação. Uiva de desesperado furor, gane a injúria sofrida. Um vizinho leva-lhe um prato de sopa todas as manhãs, ainda resta solidariedade entre irmãos, são todos portadores, mais ou menos, da mesma doença desenvolvida a ferro e fogo.
Duas semanas passam-se, Tomás já caminha pelas cercanias, um bico aqui e ali. De noite apresenta-se no acampamento, cuida das crianças, é sua predileção. Alimenta-se delas e com elas. Não há espaço para pensar no esquecimento, as lembranças não cessarão, mas amornarão com o tempo.
O primeiro grupo de auto-ajuda é fundado em Angola, para os sem nome, os anônimos da guerra. O coordenador tem a carapinha branca e se ajoelha quando reza pedindo clemência e chance aos derrotados pelos homens e pela bebida. Grupo N’gola Renascer.
Vana Comissoli
DE UNHAS À MOSTRA
para os parceirinhos que ainda estão vivos.
Choque... choque... choque...
Olhos de “dejá vue”, debruados de negro, escassos de descanso. Já meio atirada na poltrona enquanto o rock soa forte seu bate estaca e as luzes sonambulizam a sala. Trovejam também, em relâmpagos estroboscópicos. Assim estás mais uma vez. A blusa colocada de forma sensual e distorcida, mostrando a nascente dos seios. Boca falante de vermelho escorrido. O cigarro quase queimando os dedos.
Palavras saem sem nexo, desordenadas, soam na tua cabeça com estonteante lucidez, assim me contarás no dia seguinte.
Uma figura patética que se julga cult e chocante. Chocar é o maior barato, ser diferente do rebanho fabricado pelo sistema. Estás cercada por uma fauna que se agita com olhos, roupas, piercings, tatuagens, desvario, tudo se repetindo em todos.
Fazes um sinal para o garçom, único olhar atento, sabe-se lá por quanto tempo.
- Meia dose.
Ele já sabe o que pedes, és da casa. Meia dose de vodka com gelo. Meia dose até formar uma dezena, ou duas, depende da hora e da necessidade de espaço entre uma fungada e outra. Meia dose é teu apelido na irmandade cult que te atrai e provoca. Nomes são babaquices dos incautos habitantes das lojas, escritórios e fábricas. Apelidos são marcas de individualidade identificadoras de todo um padrão de comportamento arrojado e cortante. Gente ligada, entendes?
É assim que me explicas enquanto eu te tiro a roupa porque faz dois dias que não te alimentas e nem dormes. Talvez agüentasses mais um pouco, mas como és mais ligada, sabes a hora de vir te aninhar no meu covil de lobo bom. Terás comida na geladeira e leite que beberás direto da caixa, lambuzando com tua saliva de ante ontem.
Tomarás um banho porque fedes a vício, suor e álcool, nada atrativo para mim que saí dessa arapuca já faz um tempo e procuro me manter fora dela com unhas e dentes enquanto tentas me convencer que sou careta e vil. Me arranhas a cara na defesa de tuas metas de fantástica capacidade filosófica. Enxugo o sangue e choro de pena porque é esse otário que te tira os sapatos, as calcinhas que jogo na lixeira, sei lá quantos paus se roçaram nela e nem percebeste. Estão duras de sêmen, sempre tem algum mais lúcido em tuas festas.
Eras apenas uma menininha, gordinha e bem humorada a atirar pedras na molecada da rua, se segurando nas risadas. Jogavas futebol com os meninos e não davas importância às amiguinhas que achavam isso esquisito e usavam fitas cor-de-rosa nos cabelos. Gostavas de ser diferente, de ser a Mônica de nossa turma: a mandona.
Éramos parceiros, eu, tão calado, ficava te espiando e sorrindo, fazias tudo por mim, não precisava me dar ao trabalho de correr atrás da bola e nem de aprender a soltar pipa. Meus óculos atrapalhavam e eu tinha preguiça de me movimentar. Era bom ficar sentado te olhando.
Foi um tempo curto, eu jurava que nunca nos separaríamos e quando entraste na fase dos peitinhos aparecendo e a turma mudou, eu fui atrás. Fumamos juntos o primeiro cigarro, o sabor acre ardeu na minha garganta, mas na tua não. Eu fiquei ajojado no primeiro pega de maconha e tu ficaste sorrindo feito boba e achando o maior barato.
A gente se acostuma a tudo e nós nos acostumamos até não bastar mais. Já sabias muito mais do que eu, eras a esperta e os garotos passavam a mão na tua bunda enquanto te roçavas neles achando muito legal e excitante. Comigo não fazias isso porque, apesar de tudo, eu era careta.
O primeiro porre foi uma delícia de descontrole que me levou ao céu da permissão e pude me agarrar nos teus cabelos e vomitar no teu colo, dizendo que te amaria por toda a vida. Felizmente não lembramos de nada no dia seguinte e tudo não passou de um lance.
Eu não podia mais me negar ao líquido queimante, quanto mais melhor. O “plá” vinha mais rápido e eu precisava dele. Fui conhecendo todas as marcas e todas as cores: do azul absinto até o verde menta. No fim, no fim valia tudo: os transparentes. A vodka, a cachaça e o álcool de cozinha. Doloroso tobogã inevitável.
Bebíamos juntos, em casa, ouvindo Cazuza, Lobão e todos da turma.
Caíamos duros no chão mesmo, tinha carpete, embora não fizesse muita diferença e eu podia te abraçar porque estávamos de porre e valia tudo.
O cheiro da maconha empesteava o ar, grudando-se nas cortinas e misturava-se ao odor doce dos incensos que nos prometia encobrir todos os demais.
Lembras daquela vez que resolvemos criar clima para “Lanterna dos Afogados” da Cássia Eller? Acendemos todas as velas que encontramos e até foste ao mercadinho da esquina e trouxeste outras tantas. Ficou uma belezura e rimos até doer a barriga. Ficou tão bonito que resolvemos deixar queimar para sonharmos com sua luz que seria a nossa luz e queimamos o tapete. A faxineira, coitada, chegou na hora certa e jogou um balde de água quando já quase chamuscava teus cabelos e ficamos furiosos porque nos acordara. Tu atiraste um vaso em cima dela que se demitiu pela quinta vez e desta para sempre. A tua mira não estava lá essas coisas e a parede ficou manchada de terra e folhas amassadas.
Conheceste o Nenéu, cara porreta, arguto, fino como uma cobra, o corpo coberto de lindas tatuagens de animais e cruzes. As pernas nos fascinaram com seus buracos provocados pela injeção de cocaína diluída com água do radiador da moto porque não tinha paciência de chegar em casa e morava longe. A droga da água necrosou tudo, embora voltasse a repetir a façanha e achávamos que ele era o máximo da ousadia. Um cara de fé, tu me doutrinavas e eu aceitava corroído de ciúmes porque não me admiravas assim.
O Nenéu foi entrando por debaixo da porta e trazendo o pó branco, puro e alvar como uma estrela. A Vênus que só reluz na noite, como nós.
Descobrimos o céu, profetizavas enquanto tuas olheiras aumentavam e teu corpo encolhia. Tu eras beleza pura. Lias Fernando Pessoa e choravas. Tu eras emoção pura. Logo rias a rolar e lias
O tempo passou célere? Devagar? Eu não sei. O tempo parou, apesar das previsões de Cazuza.
Ficamos nesse céu que levou embora a TV, o DVD, o microondas e por fim meus tênis Nike e tua bolsa Vitor Hugo.
Eu morava sozinho e tudo era fácil, não tinha pai nem mãe para me encher o saco com suas encrencas otárias, mas tu ainda tinhas. Batias as portas, jogavas as panelas
De vez em quando traficávamos um pouquinho, apenas o suficiente para garantir nosso sustento adicto.
Encontrei um amigo na rua, tu tinhas ficado dormindo e fui buscar o leite com o qual lavávamos nossos estômagos e nos deixaria em forma para outra ronda.
Arthur tinha sumido há um tempão da turma. Esfumaçara. Ninguém sabia onde tinha se metido, acreditamos em over dose, coisa de otário.
- Oi, maluco! Fico contente em encontrá-lo com todos os ossos em cima.
- Tudo limpo, cara? – me cumprimentou.
Não deu nem tempo de eu perguntar mais nada desfiou a bobeira em que entrou. Caiu duro na porta de casa e os pais o levaram desmaiado para uma clínica de babaca onde ouviu coisa que nem Deus acredita. Ficou por lá uns quatro meses. Saiu limpo. Enfiou-se num grupo de auto-ajuda onde os companheiros juravam viver vinte e quatro horas sem a sereia. Fechando a garrafa, acreditando em Deus.
Caí duro
Fiquei de cara, o Arthur tinha enlouquecido de vez.
E foi buzinando no meu ouvido e o diabo do ouvido foi se abrindo e deixando cair aquelas palavras rosadas. Olhei meus pulsos, as marcas deixadas pela gilete com que os cortara numa noite de desespero quando a cocaína só me enlouquecia. O glamour tinha acabado e tudo girava e eu queria usar, usar e usar. Não tinha dinheiro algum e dei com a cabeça na parede até me convencer que me tornara prisioneiro. Eu que fora em busca da liberdade.
- Vem Melanga, vem comigo.
Fui. Esqueci-me de ti atirada lá no chão e parei de ver teus lindos olhos debruados de negro. Eu tinha problemas, era um adicto. Aditivado pela coca, meu sangue estava líquido de álcool e não gostava mais de comer, só a maconha despertava o apetite. Eu vomitava depois e bebia para passar a ânsia maldita e o tremor das mãos.
Ouvi meu amigo e tornei a fazê-lo.
Telefonei a meus pais, chorei ajuda e vieram me internar também
O inferno eu já conhecia, a clínica foi a sucursal dele. Dias escorrendo feito fogo na busca da abstinência que me deixava em fúria e eu tinha um arsenal de palavrões para brindar os terapeutas malucos que não sabiam nada. Toneladas de bagas a serem engolidas e que suavizavam meu sono e me davam coragem.
Saiu, lá de dentro do meu peito, uma estrada de encontro, onde caminhava o cadáver de mim. Eu dentro de pouco tempo. Matei o cadáver. Escolhi viver.
Tomo-te nos braços e revejo a menininha de minha infância, embora o sorriso seja árduo no teu rosto. Choro sobre ti. Nunca pudesses me ouvir, nunca foste eco. Tu tão esperta, tão disposta a chocar e trazer o mundo à razão, estás aqui, desmaiada e nula.
Refresco-te a fronte. Levantas os braços moles e te agarras no meu pescoço:
- Me mata, me mata. – Sussurras. – Me mata porque deixá-la não vou. Eu a amo, agora sob todas as formas com que se apresenta.
Os olhos se fecham e as lágrimas correm. Peço que elas te lavem da loucura da paixão. Paixão avassaladora que conheço bem. Levas a mão à boca e parece que engoles algo. Fico contigo no colo, assim apertada no peito. Estou esperando o que?
Um suspiro, foi só um suspiro.
Te levarei flores coloridas. Chega de branco, na tua morte serás colorida.

