A todos aqueles que são bipolares e
sentem medo.
“A vida vem em ondas, como o mar.”
Vinícius de Morais
Ah!... Foi um remanso. Não, foi uma hecatombe. Sei lá, foi um por que... Ou não. Foi um espaço. Preferiria que fosse um engano.
As palavras voltam e as vidas são um tocar de dedos. Sinto na minha pele, a dor e a felicidade de novo. Vi gente que não conheço jamais conhecerei. Seu choro guarda-se em mim como uma tatuagem indelével, ou uma facada profunda.
Pelos campos, pelas florestas, pelas cidades, pelos descaminhos, eles falam e sei que não conseguirei calá-los, por isso preciso escrever. Para não chorar, para fazer de conta que só existe a fantasia e eu. Anseio por sair da avalanche de portas trancadas e janelas guarnecidas por grades, ainda soa o disciplinado horário de dormir, comer, chorar, surtar. A histeria andando solta pelo jardim enquanto dezenas de cigarros queimam até o filtro e os dedos. Muitos olhos fitam através das coisas e das pessoas, tudo vidro. Por isso preciso reencontrar as raízes como bruxas sortílegas e fincar meu pé no que é verossímil sem ter muita certeza sobre o significado disso.
Revejo os campos destroçados da infância e choro. Sei que não basta embora minha alma mantenha-se tranqüila. Uma tranqüilidade sem movimento, água estagnada.
Entro na velha terra do passado como um forasteiro e me esgueiro pelos montes, pelas chochas colheitas e vejo as mãos de meus pais sangrando. Ouço gritos de guerra jamais executados e me firo na covardia da sobrevivência. Sou como um cão a farejar os despojos e bebo minha própria urina.
Alguma coisa dentro de mim não se mantém inerte, quando estou próximo de comer o incomível, lembro-me de que também sou feito de outras terras e outros mares.
Terras bastardas, sem nenhum laço de nobreza, terras tão virgens quanto é virgem de amor o meu sexo. As paragens de minha adolescência e me lanço a redescobrir.
Meu peito dói como uma chaga e meus pulsos estão seviciados por correntes, mas ainda assim... Se eu não acreditar em ti, Lembrança, em que acreditarei?
Se não construirmos relações de agonia e amor nada teremos. Parece-me ter pensado algo assim.
Mergulho até a morte e renasço de minhas próprias vísceras, abro os olhos e começo a perceber tudo que me cercara e os lugares perdidos onde pernoitei. As palavras são pássaros ardentes no meu peito, voam para todos os lados numa algaravia interminável. Sobrevoam-se e copulam num encontro flutuante e breve, logo tornam ao espaço escuro do meu coração. Eu penso em mim como uma folha morta enquanto encho páginas e mais páginas com palavras-pássaros que tem por ninho a lata de lixo.
Nos intervalos, sento-me a fumar. Eu flutuo.
Às vezes a tristeza da gente é contrita e absoluta como uma prece, sem motivo ou razão, talvez saudades do que não se foi.
O silêncio é soberano e a solidão não é dor, mas companheira. A tristeza não é má, é apenas palpável e presente. Um estado, uma jornada da alma que apenas a paz pode proporcionar sem sofrimento. Não há perdas, não há ganhos, há o que foi e o que é.
A tristeza da consciência de existir abraça a gente como um xale que aquece mornamente as ilusões passadas. Não se revive as batalhas ganhas, nem as perdidas, é um estar acordado dormindo, ou um dormir acordado. Não há lágrimas, ou lamentos, nem o bem, nem o mal. Um poema transita pelos olhos fazendo a antiga nostalgia arder.
Tudo continua acontecendo: os homens sonham, planejam, fornicam e choram, principalmente choram. Aqui não acontece nada, fica-se à margem.
Na tristeza tudo para, nada existe além de um breve latejar, um sussurro, um gemido. Possíveis gritos surdos. O além nos tocando... a tristeza.
Sobreviveremos, sobreviverei, escapou de meus lábios apertados.
O quarto é um abandono. Papéis espalhados pelo chão, alguns respingos de chuva entram pela janela que bate seus postigos amarelos num som monótono e constante, qual lenço acenando adeus.
Sobre a cama, mole e abandonado, deita-se um par de meias enxovalhadas. Na mesinha, ao lado contrário da cama, espalham-se farelos de pão e marcas de muitas xícaras de café. O armário tenta recolher, em vão, suas portas escancaradas, é como uma boca sem dentes assim vazio de roupas. Sob ele um chinelo desbeiçado.
O proprietário deste ambiente que guarda vestígios de loção de barba e desodorante é o pó, abancado sobre os móveis a sorrir inútil posse. Há também um cheiro de urina e cigarro.
Num canto, com as pontas presas através de pedras arredondadas por muita água de rio, morre um mapa-múndi, jogados sobre ele estão dois dados coloridos com seus doze olhos voltados para cima. Ao lado, cartas de Tarô com a Torre a espiar.
Abro a porta, ainda não posso partir. Não importa o que me diga a sorte, também não pretendo abandonar-me no quarto novamente.
Foi de repente, ou de um dia para o outro, que saí da inércia e do desespero de andar em círculos. Quero olhar gente, ruas, árvores. Vou cantando porque a vida é maravilhosa e pressinto que logo estarei apaixonado e o amor será intenso, como eu gosto.
É primavera cá dentro do peito e a vontade de fazer amor sem parar me deixa flexível e arguto. Todos os odores são convites e todas as mulheres são belas. Sinto-me magnífico e forte.
Decido desenvolver projetos que mofam há três meses na gaveta por isso retornei correndo ao quarto.
- Imundo. Como pude estar tão disperso? Minha vida é um brinquedo de parque de diversões, um João-bobo, chega dar náusea o sobe e desce, o vai e vem.
Abro as janelas, ainda bem que faz sol, junto o lixo: destroços do tempo introspectivo.
- Não sou louco, sou ambivalente, a dor profunda é fácil demais, por isso não acontece todos os dias. Basta de dor, toca a viver.
Corro até a esquina e compro flores, quatro ramalhetes de estonteante amarelo girassol, aproveito e trago junto vasos. Muitos. Quem sabe precisarei mais? O colorido faz parte de mim, sem ele não consigo viver. A partir de hoje.
Agarro-me nas paredes porque sinto meu sexo latejando. Ligo para Mariana:
- Querido, que saudades! Que houve contigo? Pensei que tivesse viajado. – A voz dela é gostosa e fico feliz em responder o vago.
- Viajei, estou de volta, vem jantar comigo.
Preciso de um carro, vendi o antigo há poucas semanas. Como posso me locomover sem um? Impossível! Terminarei aquele projeto e vendo e então sei que dá certo preciso ousar um pouco só um pouquinho e fica tudo bem nunca fui acomodado não sei o que me deu essa depressão o mundo só pode passou e também preciso de roupas decentes que as velhas estão de doer e é já.
- Viva o cartão de crédito!
Festejarei o banquete que me é servido. Corro com Mariana a beber todos os vinhos da alegoria do viver. Sei que estou belo e meu riso espalha-se como confete a colorir caras tristes e amarradas que não compreendo muito bem. Vagamente me lembro de ter visto outras assim, mas onde? Não sei, esqueci. Como podem se arrastar em meio a tanto esplendor? Que irritação me provoca esta gente amesquinhada, tenho vontade de dar uns socos e estou de saco cheio de tudo e todos os tristes do mundo. Mariana é a salvação com sua gargalhada alta e solta, com ela encontrarei as velas do meu barco. O amor é delícia na qual me lambuzo.
Idéias magníficas ocorrem-me num carrossel de possibilidades, estou consciente de que é rara tal concentração de energias e vislumbres, devo aproveitar minha criatividade, sei que qualquer coisa que imagine se realizará. Tenho certeza. Largo meus planos para olhar o céu, tem dias em que o azul é mais intenso, hoje é um deles. Hoje todas as cores são intensas.
O telefone. Melhor fixar o céu, telefone dá azar. Não para, uma droga. Sinto fúria. E se for?... Não tem porque, mas é.
- Meu filho, Fabiano... Recebi a fatura do cartão de crédito, compraste um carro. Fabiano, como pudesses fazer isso? E agora, o que faço? Fabiano, não estás bem, te conheço, tens que voltar imediatamente para casa. Fabiano! Alô! Alô?
Como ele consegue adivinhar a hora errada de me procurar? Pego a cadeira e jogo na janela, o barulho de vidro quebrado me dá mais raiva.
- Merda, tinha que quebrar esta merda? Não volto de jeito nenhum, nem manietado. Não respeita minha individualidade, este velho caduco, mas eu mostro a ele. Quero Mariana, só ela me entende, me aceita, me ama. Adoro Mariana. Tomaremos um porre. Comemoração. Dois... Três?
Dois dias depois, meu pai está à minha frente, fala devagar. Os olhos de alfinete perfuram meu cérebro me perguntando coisas idiotas, falam muito mais alto do que suas palavras que mal escuto:
- Porque paraste o remédio, Fabiano? Sabias que viria outra crise, se pelo menos tivesses tomado durante a depressão! Preciso te levar meu filho, não tenho escolha, por mais que para mim também seja terrível.
Levar o cacete! Só morto! Minha fúria é assassina, preciso livrar-me dele, senão voltará milhares de vezes. Estou pensando muito calmamente em como farei isso, é importante pegá-lo desprevenido. Fecho-me no banheiro e corto os pulsos ou enforco-me com a cinta enquanto ele fica aqui esperando? Com a cinta acho boa idéia e uma terrível sensação de inutilidade me domina. Minhas pernas tremem e já acendi quatro cigarros, um no toco do outro. Fumo mais um e digo que vou ao banheiro.
Sinto mãos me segurando pelos ombros e impedindo-me pelos pulsos. Olho meu pai, estranhas lágrimas escorrem por sua cara, balbucia alguma coisa. Seriam desculpas?
É o remanso, a hecatombe, o espaço vazio.
Não é um engano.
Vana Comissoli